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  Título
A verdade da arte e outros mitos eticos
Autor
Maria do Carmo de Siqueira Nino
Resumo Expandido
“La fiction c'est la certitude, le documentaire c'est la réalité avec son incertitude.”

J-L. Godard

“A porta da verdade estava aberta, mas só deixava passar meia pessoa de cada vez.

[...]Chegou-se a discutir qual a metade mais bela. Nenhuma das duas era totalmente bela.

E carecia optar. Cada um optou conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.”

Carlos Drummond de Andrade





A arte abstrata ao longo de sua já longa história no século XX, sempre esteve ligada a uma incompreensão por parte de um público mais amplo, não iniciado. O documentário americano Pintora aos quatro anos (My kid could paint that, Amir Bar-Lev, 2007) retoma ironicamente no seu título original uma expressão corriqueira em exposições de galerias de arte ou mesmo em instituições como museus, diante de certos quadros desta tendência, uma vez que se tratam de obras onde não se consegue reconhecer o menor traço da realidade objetual que permeia a existência humana cotidiana. O público, então, compelido a observar a pintura em si mesma e nada mais, deve pautar o seu julgamento em valores que nada devem à representação, à imitação ou à reprodução de algo observável. Como conseqüência a maioria se percebe desorientada, o que pode levá-los a considerar a pintura abstrata como um tipo de arte fácil de ser realizada, ou mesmo reproduzida, até mesmo por uma criança.

Porém o que acontece quando uma menina de apenas quatro anos obtêm êxito no mercado de artes, reputado como complexo, hermético, difícil, e consegue vender obras por preços alcançados por uma minoria? São os próprios limites do sistema das artes, da industria cultural e dos seus processos de legitimação que são então questionados. Como outrora em Verdades e Mentiras (“F” for Fake, Orson Welles, 1973), o cinema se transforma em suporte de discurso sobre a natureza do fazer artístico e ao fazê-lo se autoquestiona, transformando-se em imagem como reflexo da imagem em um jogo moebiano onde criador e criatura parecem ocupar o mesmo espaço.

Este é um documentário que praticamente se subdivide em duas partes: iniciado em 2004, na primeira parte temos fundamentalmente o retrato do êxito de Marla Olmstead que, ao divertir-se pintando, consegue obter resultados esteticamente superiores para uma criança de sua idade e chamar a atenção de todos – especialistas ou não, o que desnuda a princípio a obsessão humana pelos talentos – prodígio (presente inclusive na própria historia do cinema) fato que é explorado no filme a partir daqueles que se acercam da criança. Neste ponto da diegese já dispomos de elementos suficientes para abrir um debate pertinente sobre a real essência deste ato estético que denominamos Arte - e em particular da arte abstrata - além do papel dos agentes participantes do seu complexo sistema de funcionamento na sociedade atual, aspectos que são prementes na nossa cultura.

Quando, porém, em 2005, uma edição do programa televisivo americano “60 Minutes” coloca em dúvida a autonomia de Marla nas decisões tomadas durante a execução das pinturas, sugerindo que ela tenha sido ajudada pelo pai, um pintor amador, o documentário ganha um interesse suplementar, aponta para uma outra dimensão, uma vez que vão ser incorporados ao mesmo as dúvidas do próprio diretor no que tange à capacidade criadora da menina. Inicialmente crédulo e algo reverente quanto ao talento de Marla, Amir Bar-Lev se distancia desta postura, e torna-se então mais um protagonista dentro do próprio filme, o que nos permite também que sejam questionados aspectos da ética na narração deste gênero cinematográfico.

O viés documental assumido desde o inicio, se vê explorado neste momento em recursos que lhe são característicos e cujos limites são questionados pelo autor, adquirindo um caráter metalingüístico, auto-reflexivo. Neste momento o filme finalmente parece atingir o ápice do seu questionamento — no caso, com competência, discutir teoria, história e ética na arte cinematográfica e/ou pictórica
Bibliografia

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• Da-Rin, S., Espelho Partido: tradição e transformação do documentário, RJ, Azougue Editorial, 2004.

• Derrida, J., La verité en peinture, Paris, Flammarion, 1978.

• Diniz, C., Crachá: alguns aspectos da legitimação artística Recife-Olinda/ 1970-2000, Recife, Massangana, 2008

• Haar, M, A obra de arte: ensaio sobre a ontologia das obras, tr. M.ª H. Kühner, RJ, DIFEL, 2000.

• Lins, C., O Documentário de Eduardo Coutinho: televisão, cinema, vídeo, RJ, Zahar, (2004) 2007

• Machado, A., O Sujeito na tela: modos de enunciação no cinema e no ciberespaço, SP, Paulus, 2007

• Nichols, B., Introdução ao documentário, tr. M. S. Martins, Campinas, SP, Papirus, (2001) 2005, col. Campo Imagético

• Stam, R., Reflexity in film and literature – from D.Quixote to Jean-luc Godard, NY, Columbia University Press, (1985) 1992

• Vasconcellos, J., Deleuze e o Cinema, RJ, Editora Ciência Moderna Ltda., 2006