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  Título
Poéticas do real em Jia Zhang-ke
Autor
Isaac Pipano Alcantarilla
Resumo Expandido
Esta proposta de painel refere-se à pesquisa de mestrado, ainda em decurso, “Poéticas do real em Jia Zhang-ke: estudo dos procedimentos narrativos nos documentários Dong, Inútil e 24 Ciy”, desenvolvida na linha de pesquisa de Análise da Imagem e Som do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense.

Os estudos das últimas décadas acerca dos registros imagético-sonoros documentais revelaram que este vasto campo, qual a dimensão das narrativas ficcionais, constitui-se como um terreno bastante fértil, formal e tematicamente. A nomenclatura vigente por um longo período, a qual se orientou em alinhar as narrativas documentárias a termos como objetividade e factual, depara-se com produtos inventivos onde o simples revestimento de “apreensão do real” passa a ser questionado. Tal compreensão aponta para uma revisão da tradição do documentário a partir de um novo viés, independente do seu duplo ficcional, mas que por muitas vezes sugere um caminho de imbricação, convergência, hibridação dessas espécies narrativas de naturezas distintas. Em acordo com esta perspectiva, repleta de ambivalências e correspondências, a obra do chinês Jia Zhang-ke parece repercutir em horizontes conceituais que atendem à complexidade das narrativas documentais.

Em Dong (2006), Jia segue o pintor Liu Xiao-dong pelas locações na construção da usina hidroelétrica de Três Gargantas, área em que trabalhadores demolem casas para dar lugar às instalações da barragem. Algumas das imagens captadas em Dong são reutilizadas pelo diretor em sua narrativa ficcional Em Busca da Vida. Os registros foram realizados quase concomitantemente e, juntos, constroem um panorama dos reflexos da urbanização na vida dos habitantes daqueles vilarejos, agora submersos pela barragem. Inútil (2007), por sua vez, discute a exploração da indústria têxtil chinesa, num contraponto com o mundo da alta cultura através de um programa da estilista Ma Ke e sua linha de roupas apresentada na Paris Fashion Week. A exatidão com que produz alguns dos planos suscita reflexões acerca do que é registrado pela câmera daquilo que é representado para a câmera do diretor, questionando o estatuto da imagem-sonora documental. Por fim, 24 City (2008) promove uma construção análoga ao proposto por Eduardo Coutinho em Jogo de Cena; através de relatos de trabalhadoras mesclados a depoimentos de atrizes, Jia acompanha o processo de demolição da Factory 420, indústria que abrigava cerca de 30.000 trabalhadores, cedendo lugar à construção de um condomínio de luxo homônimo ao filme.

Nos três documentários é latente o exercício de procedimentos narrativos que nas camadas superficiais aparentam-se advindos do campo ficcional. Porém, seriam estes recursos narrativos tão-somente “emprestados” das narrativas ficcionais e utilizados nos documentários ou reinvenções narrativas próprias das imagens-sonoras documentais? Não seria a dimensão documental das imagens-sonoras tão complexa que dela poderiam emanar procedimentos estéticos que a priori parecem próprios das ficções?

Se ao negar a existência de fronteiras, imediatamente reconhece-se a vigência das mesmas, ressalta-se que esta pesquisa pretende menos investir numa rigorosa segregação das espécies documentais e ficcionais do que compreender a complexidade das narrativas contemporâneas. Tendo em foco um realizador que tem em seu escopo o real; projetando-o, deformando-o, reformando-o a partir da inserção de virtudes poéticas capazes de dar conta das ambiguidades de um país em latente processo de transformação.

Bibliografia

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