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  Título
Sérgio Muniz no cinema e na TV: experimentação e negociação
Autor
Gilberto Alexandre Sobrinho
Resumo Expandido
Essa pesquisa investiga as particularidades na filmografia de Sérgio Muniz em dois momentos do cinema e da televisão. No cinema, seu nome está diretamente associado a um conjunto de filmes produzidos Thomaz Farkas, hoje conhecidos como a Caravana Farkas. São documentários realizados num esquema de produção independente que marcaram época, sobretudo, do ponto de vista da formação de uma geração de importantes realizadores cuja envergadura singulariza o moderno documentário brasileiro, a saber: Geraldo Sarno, Paulo Gil Soares, Maurice Capovilla, Eduardo Escorel e outros.

Nas primeiras fases de sua produção, entre os anos 1964/65 e 1969/71, os filmes da Caravana se aproximavam do Cinema Novo, mas foram determinantes as influências estrangeiras, processadas e ressignificadas de acordo com as demandas locais, com destaque para Fernando Birri, e Jean Rouch. A produção avança até 1980, com filmes também viabilizados em esquema de co-produção. Desses momentos, Sérgio Muniz dirige os filmes Beste (1969), rastejador, s.m. (1969), roda & outras estórias (1965), De raízes & rezas, entre outros (1972), Cheiro/gosto: o provador de café (1976), Um a um (1976), A cuíca (1978), O Berimbau (1978) e Andiamo in'mérica (1980), ou seja, Muniz atravessa a produção de Thomaz Farkas Filmes Culturais.

No contexto da televisão, quero destacar dois documentários produzidos para o Globo Repórter Documento, um segmento especial do programa semanal Globo Repórter, da Rede Globo de Televisão. São eles, Vera Cruz, fábrica de desilusões (1975) e A loucura nossa de cada dia (1977), ambos produzidos pela Blimp, produtora de São Paulo. Em substituição ao programa Globo Shell, O Globo Repórter estreou no dia 03 de abril de 1973, com os programas Escolas de Samba, Eleições no Chile, Argentina e França, Fitipaldi e O Caso dos Índios Sioux, sendo um conjunto de produções nacionais e internacionais, com texto de Luis Lobo, montagem de Paulo Gil Soares e narrações de Sérgio Chapelin e Mário Lago.

Paulo Gil Soares foi o diretor-geral no período de 1973 a 1982. À equipe do Rio de Janeiro agregam-se ainda Eduardo Coutinho, Walter Lima Jr. e Jotair Assad, os três diretores fixos do programa, além de Eduardo Escorel e Osvaldo Caldeira, como diretores contratados, entre outros. Em São Paulo, em 1974, João Batista de Andrade cria a Divisão de Reportagens Especiais. A Blimp, produtora paulista, encarrega-se de vender um pacote de documentários por ano, o que permite a criação de uma equipe de realização e pesquisas densas sobre os conteúdos. Para esses filmes são contratados diretores como Maurice Capovilla, Sylvio Back, Roberto Santos, Getúlio Oliveira, Leon Hirszman, Denoy de Oliveira, Hermano Penna, Renato Tapajós e outros.

No quadro histórico do audiovisual brasileiro, essa presença de realizadores, parte deles egressos de experiência com a produção independente de documentários, é atestado do vigor que se alcançou o gênero no campo do cinema, daí a migração desses profissionais que imprimiram traços de originalidade na elaboração dos filmes. No entanto, o conteúdo dos filmes, os recursos técnicos utilizados e a formatação do material não condiziam com o modelo de mercado então existente. Por exemplo, Frei Damião (1970), produção de Thomaz Fakas chegou a ser exibido na TV Globo, sendo remontado e reduzido por seu diretor, Paulo Gil, no segmento Globo Repórter Atualidades.

A análise da filmografia de Sérgio Muniz revela, para os nossos interesses: os caminhos de sua poética, ou seja, os percursos de sua autoria, em que salta aos olhos os procedimentos de montagem e as variações sobre a encenação, assinalando os viéses da produção da Caravana e o que se configura como caso relevante no contexto de produção independente. Na realização para o programa Globo Repórter, verifica-se que o período de “aprendizado”, experimentação e ousadia não foram abandonados mas negociados dadas a demandas institucionais de um programa de televisão transmitido em rede nacional.
Bibliografia

D'ALMEIDA, A. Caravana Farkas (1968/1970): a cultura popular (re) interpretada pelo filme documentário – um estudo de folkmídia. Dissertação (Mestrado em Comunicação). Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2003

LUCAS, M.L. Caravana Farkas – itinerários do documentário brasileiro. Tese (Doutorado em História). Instituto de Filosofia e Ciências Socias. UFRJ, Rio de Janeiro, 2005

SACRAMENTO, I.Depois da revolução, a televisão: cineastas de esquerda no telejornalismo televisivo dos anos 1970. Dissertação (Mestrado em Comunicação) Escola de Comunicação. UFRJ, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2008

SOBRINHO, G.A. A Caravana Farkas e o moderno documentário brasileiro: introdução aos contextos e aos conceitos dos filmes. In: HAMBURGER et al. Estudos de Cinema – Socine. São Paulo: Annablume, 2008

VARGAS, H. Globo Shell Especial e Globo Repórter: as imagens documentárias na televisão brasileira. Dissertação (Mestrado em Multimeios) Instituto de Artes. Unicamp, Campinas, 2009