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  Título
Recursos frente à passagem do tempo
Autor
Fabio Allan Mendes Ramalho
Resumo Expandido
Longe do que se convencionou chamar de cinema político, os filmes Silvia Prieto (1999) e Los guantes mágicos (2003), ambos do cineasta argentino Martín Rejtman, sugerem um panorama em que as relações pessoais carecem de vínculo duradouro e onde o social se mostra em grande medida ilegível. Tal opacidade, inscrita nas ações rotineiras dos personagens, orienta a constituição de um universo estético peculiar que contribuiu para rearticular parte da produção cinematográfica no subcontinente. Juntos, tais filmes indicam também uma consistente reflexão sobre as circunstâncias a partir das quais distintas gerações poderiam, nas palavras de Gonzalo Aguilar (2006), “buscar os meios para aceder a uma experiência”.



Interessado em investigar algumas das conexões entre estética e política a partir deste enfoque, busco inicialmente mapear as bases que orientam a constituição destas narrativas. Para tanto, destaco a prevalência de uma desordem cotidiana e dos esforços que buscam, em certa medida, suplantá-la, movimento este que termina por conduzir à instauração de novas e provisórias ordens aleatórias que se dão pela circulação de pessoas, dados e objetos (CHAUVIN, 2007). Tais circuitos se constituem sempre de forma insuficiente e instável e mesmo as identidades se esvaziam continuamente pela sua volatilidade, restringindo-se por diversas vezes a um nome, a uma denominação no crachá ou à referência a uma função profissional.



Tendo em vista essa insuspeita recorrência do trabalho, busco atribuir ênfase aos traços do universo laboral visíveis nas obras em questão, observando a partir daí como seria possível flagrar uma reconfiguração do político nesses filmes. Argumento que o trabalho se destaca como um dos recursos possíveis para a afirmação de uma experiência e que sustentaria, deste modo, algumas das muitas tentativas de compor marcos e firmar resoluções frente ao desvanecimento. Ao mesmo tempo, os desdobramentos que este campo assume no contemporâneo vêm indicar as transformações no panorama sócio-político e, assim, dar margem à articulação de comentários irônicos – por vezes ácidos ou bem-humorados – sobre a possível falência de táticas, antigos discursos e emblemas militantes.



Ao lado do trabalho, outros elementos ganham relevância: as viagens, a deriva urbana, a vida noturna. Sempre oscilando entre diferentes situações de possibilidade ou de fracasso, tais recursos apresentam uma carga de significação que ganha inesperados contornos, revisitando sob novas e inusitadas perspectivas os imaginários da fuga que permeiam o cinema contemporâneo e engendrando, a partir daí, a constituição do que poderíamos chamar de subjetividades dissidentes.



Tais recursos vêm em última instância confrontar a indeterminação e a abertura do futuro em toda sua sintomática ausência de salvaguardas, bem como sublinhar pequenas angústias geracionais pontuadas pela eloqüência dos traços epocais que assinalam a passagem do tempo.

Bibliografia

AGUILAR, Gonzalo. Otros mundos: un ensayo sobre el nuevo cine argentino. Buenos Aires: Santiago Arcos Editor, 2006.



CHAUVIN, Irene. Martín Rejtman: Profanações da fala no novo cinema argentino. Comunicação&política, 2007, v.25, nº2, p.235-246.



RICHARD, Nelly. Residuos y metáforas. Ensayos de crítica cultural sobre el Chile de la Transición. Chile: Editorial Cuarto Propio, 2001, 2ª ed.



SARLO, Beatriz. “Plano, repetición: sobreviviendo en la ciudad nueva”. In: Birgin, Alejandra y Trímboli, Javier (comps.). Imágenes de los noventa. Libros del Zorzal: Buenos Aires, 2003b, p. 125-149.



SENNETT, Richard. A corrosão do caráter: conseqüências pessoais do trabalho no novo capitalismo. Rio de Janeiro: Record, 2001, 5ª ed.