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  Título
Formas de resistência no documentário contemporâneo cearense
Autor
Rodrigo Capistrano Camurça
Resumo Expandido
Gilles Deleuze diagnosticou a crise da sociedade disciplinar e pontuou as transformações nos espaços de confinamento, abrindo os caminhos para a instalação do controle. Os poderes atuam sob uma nova lógica, os espaços se organizam sob uma nova ordem. O capitalismo precisa cada vez mais fomentar a vida e estimular a produção de subjetividades. Dentro do regime de modulação da sociedade de controle, intensifica-se o desenvolvimento do regime da biopolítica. O mesmo poder que restringe por um lado, que castra, que diz não, é aquele que potencializa a resistência e os atos de criação. Partimos da compreensão que resistir é criar. Buscando novos estilos de vida, novos modos de existência, desenvolvemos linhas de fuga que escapam aos poderes. Resistências transitórias, que não tenham a pretensão de realizar rupturas radicais imediatas. Micro-resistências, que busquem desenvolver a percepção de um novo olhar sobre o mundo, que apliquem nas pessoas o desejo de construção de outros horizontes. As tensões encontradas na produção documentarista contemporânea apontam vários caminhos para essas reflexões. Propomos analisar três documentários realizados no estado do Ceará nos últimos anos: “Vilas Volantes – o verbo contra o vento” (2005), de Alexandre Veras, “Uma Encruzilhada Aprazível” (2007), de Ruy Vasconcelos e “Sábado à Noite” (2007), de Ivo Lopes Araújo.

Nesses filmes, a produção documentarista brasileira associada ao chamado “modelo sociológico”, classificado por Jean Claude Bernardet, é recusada. Eles fogem da representação tradicional. O estado do Ceará está presente nas suas mais importantes delimitações espaciais: litoral – sertão – metrópole. Porém, os realizadores compartilham da necessidade de apresentar outras realidades, outros olhares. Esse chamado cinema contemporâneo cearense faz uma aposta: a crença no real e no mundo é buscada na contemplação do comum. Em meio ao ritmo desenfreado da rapidez cotidiana tenta-se extrair o acontecimento no menor, no gesto, no banal, na paisagem.

Os três filmes retratam espaços diferenciados do estado do Ceará. Em "Vilas Volantes – o verbo contra o vento", temos o litoral. O ritmo de tranqüilidade vivida pela comunidade de pescadores da localidade de Tatajuba só chega a ser verdadeiramente abalada diante da ação dos ventos, marés e deslocamentos das dunas. "Uma Encruzilhada Aprazível" retrata o sertão cearense. O entroncamento rodoviário serve como ponto de encontro e abastecimento para ônibus, caminhões e transeuntes. O clima quente, a aridez da região, e a localidade de Aprazível são espectadores desse local de passagem. "Sábado à noite" apresenta a urbanidade. As luzes de Fortaleza são as mais presentes testemunhas de um sábado “apagado”, onde o cotidiano acelerado cede lugar para uma casa quase vazia, um bar com poucos clientes e uma câmera que busca os pássaros ao nascer do dia.

Nos três filmes, as cenas de momentos contemplativos e a presença do tempo estendido nas paisagens garantem a criação de verdadeiros ensaios audiovisuais, que estabelecem um profícuo diálogo com as artes contemporâneas. Uma construção de caráter mais narrativo é deixada de lado. O cinema ensaístico, o privilégio aos planos-seqüência e o registro dos modos de individuação dos lugares-comuns marcam os filmes. Seria nessa combinação de elementos que o documentário contemporâneo cearense apresentaria sua dimensão política e engendraria suas possibilidades de resistência.

Bibliografia

BERNARDET, Jean-Claude. Cineastas e imagens do povo. SP: Companhia das Letras, 2003. BRASIL, André. Modulação/montagem: ensaio sobre biopolítica e experiência estética. Tese de doutorado em Comunicação – Universidade Federal do Rio de Janeiro, CFCH/ECO, 2008. COMOLLI, Jean-Louis. Ver e poder: cinema, televisão, ficção, documentário. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2007. DELEUZE, Gilles. Cinema II: A Imagem-Tempo. São Paulo: Brasiliense, 2007. FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: a vontade de saber. RJ: Edições Graal, 1988. LINS, Consuelo e MESQUITA, Cláudia. Filmar o Real – Sobre o documentário brasileiro contemporâneo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2008. LOPES, Denilson. A delicadeza: estética, experiência e paisagem. Brasília: Ed. UnB, 2008. PELBART, P. P. Vida capital: ensaios de biopolítica. São Paulo: Iluminuras, 2003. RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: Estética e Política. São Paulo: Editora 34, 2005.