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  Título
Marcas de um realismo sensório no cinema mundial contemporâneo
Autor
Erly Milton Vieira Junior
Resumo Expandido
Ao se debruçar sobre uma certa vertente da produção audiovisual dos últimos vinte anos, parte da crítica cinematográfica, a partir dos textos publicados por Stephane Bouquet e Jean-Marc Lalanne na Cahiers du Cinema, cunhou o termo “estética do fluxo”. Sob essa rubrica, encontramos um conjunto transnacional de narrativas contemporâneas nas quais o plano se assumiria como o “lugar de construção primeira de uma radicalidade da visão” (Lalanne: 2002), calcada numa relação, estabelecida junto ao espectador, em que a apreensão sensorial da cena, se não fosse preponderante, ao menos seria tão essencial quanto sua contraparte racional. Também poderíamos destacar a ênfase numa reinserção corporal no espaço e tempo do cotidiano, bem como na adoção de um tom narrativo no qual as ações dos personagens seriam muito mais apreendidas pelo espectador como desencadeadoras de afetos e sensações do que julgamentos.

Se, nos meus trabalhos apresentados nos dois anos anteriores na Socine, concentrei-me em discutir algumas estratégias de construção temporal (a partir do uso do plano-sequência) e espacial (o trânsito dos corpos entre paisagens físicas e culturais em constante mutação) desse “cinema de fluxos”, desta vez busco investigar aquilo que, para mim, constitui o elemento central dessa proposta estética: a emergência de um novo tipo de realismo, de caráter mais sensorial, como estratégia central para o estabelecimento de uma relação câmera/ator/espectador. Aqui, baseio-me na categorização do real proposta por Schollhammer (em especial o realismo afetivo) para desdobrar a idéia de um cinema em que a análise microscópica do cotidiano seria pautada por uma visualidade em que o sensorial seria hipervalorizado como instância fundamental para uma construção narrativa muito mais pautada por ambiências e ambiguidades sonoras/visuais que fugiriam a uma leitura centrada principalmente no entendimento racional do que a imagem e nos apresenta. Teríamos aqui, um “cinema de superfície” (Barker, 2009), na acepção de uma tatilidade do olhar, de uma exploração da textura como rica porta de entrada do espectador à experiência narrativa e multisensorial que o filme propõe.

Sob essa perspectiva, é válido retomar conceitos como a visualidade “háptica” identificada por Laura Marks, muito mais aproximada ao tátil que a tradicional visualidade “óptica” (e que, por exemplo, pode ser aplicada às hipnóticas irrupções dos planos-detalhe corporais nos filmes de Claire Denis), ou ainda, a idéia de uma câmera-corpo, tão cara ao cinema de Naomi Kawase, para pensarmos como esse cinema busca um olhar sobre a experiência cotidiana. Esse conjunto de narrativas “em tom menor” (Lopes, 2007), proporcionaria uma espécie de contemplação meditativa, uma macro-percepção do detalhe que criaria assim uma zona de indistinção, convidando o espectador a abrir-se para uma sensorialidade extra-ordinária e intuitiva (o que permitiria, por exemplo, elaborarmos outras leituras acerca das estratégias narrativas adotadas em filmes como Mal dos trópicos, de Apichatpong Weerasethakul, ou A mulher sem cabeça, de Lucrecia Martel).

Ao optar por aplicar tal perspectiva ao trabalho de quatro realizadores contemporâneos comumente arrolados pela crítica naquilo que ela denomina “estética de fluxo”, busco também investigar o caráter transcultural dessa proposta audiovisual. Uma vez que percebemos a estética do fluxo não como um movimento cinematográfico, mas como uma certa afinidade entre propostas estéticas que eclodem simultaneamente no trabalho de realizadores de diversas regiões do planeta, muitas vezes tematizando o tensionamento entre as particularidades locais e uma cultura transnacional, faz-se necessário também perceber como a interação entre paisagens culturais tão diversas entre si, e geograficamente isoladas, compartilham, de certo modo, de um mesmo imaginário cultural/estético, e de que forma a ênfase no sensorial pode se configurar como um outro (rico) olhar sobre o cotidiano global.

Bibliografia

BARKER, Jennifer. The tactile eye. University of California Press, 2009.

BURKITT, Ian. “The time and space of everyday life”. In: Cultural Studies, Vol. 18, Numbers 2-3/March/May, 2004.

LALLANE, Jean Marc. “C’est quoi ce plan?”. In: Cahiérs du Cinema, n. 569, 06/2002.

LOPES, Denilson. A delicadeza: Estética, experiência e paisagens. Brasília: Ed. UnB/Finatec, 2007

LÓPEZ, José Manuel (org.) Naomi Kawase: El cine en el umbral. Madrid: T&B Editores, 2008.

MARKS, Laura. Touch: Sensuous theory and multisensory media. University of Minnesota Press, 2002.

______. The Skin of Film. Duke University Press, 2000.

MAYNE, Judith. Claire Denis. Illinois University, 2005.

QUANDT, James. Apichatpong Weerasethakul. Viena: Synema, 2009.

SCHOLLHAMMER, Karl-Erik. “O espetáculo e a demanda do real”. IN: FREIRE FILHO, João e HERSCHMANN, Michael. Comunicaçào, cultura e consumo. Rio de Janeiro: E-Papers, 2005

SHAVIRO, Steven. The cinematic body. University of Minnesota Press, 1993