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  Título
O cinema e as exposições universais: um histórico
Autor
Eduardo Victorio Morettin
Resumo Expandido
Como nos dizem Leo Charney e Vanessa Schwartz, dentro da cultura da modernidade surgida no século XIX “o cinema formou um cadinho para idéias, técnicas e estratégias de representação já presentes em outros lugares” (2001, p. 20). Nesse quadro, as exposições internacionais, iniciadas em 1851 em Londres, ao celebrarem o avanço científico e as novas máquinas, reservavam espaço significativo para iniciativas as mais variadas no campo do entretenimento a fim de marcar que o domínio econômico encontrava correspondência em uma trajetória identificava também ao desenvolvimento cultural. Pavilhões dedicados à literatura ou às artes plásticas eram acompanhados de amplos espaços dedicados ao lazer. Esse setor na exposição de Chicago, em 1893, por exemplo, “became one of the most successful and famous amusement areas of any of the world’s fairs, and it established a pattern for mass entertainment that soon found application in such independent parks as Coney Island” (BADGER, 1990, p. 127). Um novo modo de visão é instituído com a introdução nesses espaços de tecnologias recentes que permitem a incorporação de procedimentos mobilizadores da visão e dos corpos em uma forma de visualidade que o cinema herdará, adaptará e reconstruirá anos depois (RABINOVITZ, 1997, p. 99, 111).

Nesse contexto deve ser destacada a participação do cinema na exposição universal de 1900 realizada em Paris, espaço que oferecia à recente novidade no campo do entretenimento a possibilidade e a chance de um reconhecimento oficial e internacional. Sem papel de destaque, a produção cinematográfica é incluída pela primeira vez em uma exposição internacional. Os anfitriões promoveram exibições públicas em Paris a fim de mostrar ao mundo que cabia aos irmãos Lumière e, portanto, à França, o pioneirismo da descoberta. (TOULET, 1986).

Em 1915, na exposição ocorrida em San Francisco, uma produtora, a Exposition Players Corporation, foi criada pelos organizadores a fim de garantir o fluxo contínuo de películas nos diferentes espaços expositivos. Estima-se que mais de trezentos mil metros de filmes tenham sido exibidos em sessenta cinemas espalhados pelo recinto (BENEDICT, 1990, p. 224).

É significativa a convergência percebida entre tal espaço de celebração e o cinema, em virtude do próprio estatuto atingido pelo último nesse momento. Ao se consolidar como meio de comunicação de massa, ele passou a ser utilizado cada vez mais como “vitrine” em que a nação projeta as virtudes nacionais a serem celebradas em um cenário marcado pelo imperialismo. Foi vontade manifesta dos países com um cinema consolidado que determinados filmes fossem vistos como expressão de orgulho nacional, dada a condensação de pujança econômica, avanço técnico, talento artístico e competência administrativas presentes em obras de ficção do período, como Nascimento de uma Nação (1915), de David Griffith. Nas primeiras décadas do século XX, a competência técnica e discursiva (em termos do domínio de procedimentos narrativos específicos) de uma cinematografia significava progresso nacional, superioridade, numa competição que transferia para a nova arte aquele papel desempenhado eminentemente pelas exposições universais ao longo do século XIX.

Há um enorme distanciamento entre as produções referidas acima e a cinematografia nacional, cuja marca nesse período é mais precária. No entanto, em vários documentários realizados para a Exposição Internacional do Centenário da Independência do Brasil, realizada em 1922 no Rio de Janeiro em que existe a mesma vontade de perpetuação pela imagem cinematográfica de determinada memória histórica. Sua veiculação pelas salas de exibição no espaço da Exposição constituía um esforço imagético de conferir uma identidade moderna ao Brasil por intermédio do cinema. A seu modo, o Brasil nos anos 20 e início da década de 30 acompanhava a tendência mundial apontada, e um dos objetivos da comunicação é o de discutir os vínculos com a tradição pregressa.

Bibliografia

BADGER, R. Chicago 1893. World’s Columbian Exposition; e BENEDICT, B. San Francisco 1915. Panama Pacific International Exposition. In: FINDLING, J. e PELLE, K. (eds.). Historical Dictionary of World’s Fair and Expositions, 1851-1988. New York, Greenwood. Press, 1990, p. 122 – 132, p. 219 – 226.

CHARNEY, L. e SCHWARTZ, V. (orgs). O cinema e a invenção da vida moderna. SP, Cosac & Naify, 2001.

MORETTIN, E. O cinema e a Exposição Internacional do Centenário da Independência do Brasil. Artcultura. 8 (13): 189 – 201, 2006

RABINOVITZ, L. The fair view: female spectators and the 1893 Chicago World’s Columbian Exposition. In: ANDREW, D. (ed.). The Image in Dispute. Austin, University of Texas Press, 1997, p. 97 – 11

TOULET, E. Le Cinéma à l’exposition universelle de 1900. Revue d’Histoire Moderne et Contemporaine. , n. 33, 1986

XAVIER, I. De monumentos e alegorias políticas: a Babilônia de Griffith e a dos Taviani, In: Estudos de Cinema, (2): 125 – 152, 1999