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  Título
Linguagens cruzadas em busca do “eu”: a construção biográfica no doc
Autor
denise tavares da silva
Resumo Expandido
Em tempos de cultivo do indivíduo, as biografias recuperaram, de forma contundente, seu amplo espaço, seja na literatura, seja nas variadas plataformas a que recorrem hoje as produções audiovisuais. Tal cenário permitiu a multiplicação de problematizações em torno do gênero biográfico, particularmente em relação às tensões que envolvem a proposta de se reconstruir uma vida. Entre elas, a que coloca Pierre Bourdier quando aponta o que chama de “ilusão biográfica” (2006). Sinteticamente, nesse texto o autor discute a tentação a que sucumbem muitos biógrafos de, ao se debruçarem sobre uma vida, buscarem construir coerências artificiais para que a história do indivíduo faça sentido.

Apesar desta e outras ponderações que colocam em xeque a narrativa biográfica, outros autores, como François Dosse (2009), optam por recuperar a relevância do gênero considerando não só o abrangente interesse do público, mas também adesões inesperadas que este provoca. Um caso exemplar, para Dosse, é o de Marc Ferro. Diretor da revista Annales a partir de 1969, o que o localiza entre aqueles que consideravam o gênero “apanágio de plumitivos” (DOSSE, 2009, p. 104), Ferro escreveu “Pétain” (1987), biografia do general francês, chefe do governo Vicky, condenado à morte por colaboração ao regime nazista.

Se na literatura e história o gênero biográfico segue costurado por polêmicas, no audiovisual o espaço que ocupa, além de significativo, ganha acréscimos em termos de espaço para questionamentos, se pensarmos na dificuldade de realização que a exigência óbvia de imagens e sons que “relatem” a vida em foco, coloca. E, claro, essa questão ganha contornos ainda mais complexos quando se trata de documentários biográficos. Nestes, além dos debates que friccionam as contradições e conflitos que envolvem a disposição de fixar uma identidade em um tempo que, sabemos, é múltiplo e maleável por dependente do ponto de vista (ou seja, o passado), somam-se as dificuldades de viabilizá-la “audiovisualmente” em termos de representação do real. As estratégias, para tanto – e também para outras questões – conformam uma produção que recorre aos testemunhos e, também, às ressignificações de material fílmico alheio, em procedimento de reapropriação de imagens. Outras soluções são as imersões performáticas em territórios percorridos pelos biografados ou, ainda, os diálogos profícuos com outras linguagens como a animação e as artes plásticas, em busca de construir, imagisticamente, metáforas que dêem conta da interpretação/relato de situações ou sentimentos da vida ou vidas focadas.

A proposta desta comunicação, assim, é discutir estas e outras soluções a que recorrem os documentários biográficos, a partir de um breve mapeamento dos filmes produzidos pós-retomada, com diagnóstico que inclui agrupamentos interesantes de serem verificados quando, por exemplo, comparados à de países da América Latina, como Argentina e Venezuela. O recorte justifica-se em função das novas soluções advindas do digital e, também, pela necessária contextualização em torno dessa escolha de “eus”, tão sintonizada a um “espírito de época”, digamos. Some-se a este dado, a imposição que o gênero biográfico, de caráter híbrido por condição – é, quase necessariamente, documental, interpretativo e - por que não? -, ficcional – impõe ao documentário, em um momento que as discussões em torno das fronteiras que o separam da produção ficcional, estão sendo, continuamente, fraturadas.

Bibliografia

BEAUVAIS, Yann. Filmes de Arquivo. In Revista do Festival Internacional de Cinema de Arquivo. Rio de Janeiro, ano 1, n. 1, 2004.

BOURDIEU, Pierre. A ilusão biográfica. In FERREIRA, M.M.; AMADO, J. Usos & abusos da história oral. 8ª ed. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 2006.

DOSSE, François. O Desafio Biográfico – Escrever uma vida. São Paulo: Edusp, 2009.

FABRIS, Mariarosaria. Nem tudo é verdade, nem tudo é mentira. In HAMBURGER, E., SOUZA, G., MENDONÇA, L. AMANCIO, T. (orgs). Estudos de Cinema Socine. São Paulo: Annablume/Fapesp, 2008.

LEVI, G. 2006. Os usos da biografia. In FERREIRA, M.M. e AMADO, J. Usos & abusos da história oral. 8ª ed. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 2006.

PENA, Felipe. Teoria da Biografia Sem Fim. Rio de Janeiro: Mauad, 2004.

TENDLER, Silvio. A reconstrução da memória. In Revista do Festival Internacional de Cinema de Arquivo. Rio de Janeiro, ano 1, n. 1, 2004.