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  Título
Autópsia dos Mortos Vivos: críticas à vida moderna na obra romeriana
Autor
Lúcio Reis Filho
Resumo Expandido
O fim da década de 1960 sinaliza um período intricado para os Estados Unidos. Ao mesmo tempo em que brota toda a atualidade cultural, da ecologia ao individualismo, como aponta o filósofo Jürgens Habermas, demonstrações de violência se espalham pelas ruas de centros urbanos como Nova Iorque. No interior desse contexto, 1968 foi um marco e, talvez, o ano mais conturbado na trajetória da nação desde o desfecho da Guerra Civil. Pouco antes de Richard Nixon ser eleito pelos patriotas conservadores, insurreições de cunho racial explodem nos guetos das grandes cidades dos Estados Unidos e a juventude do país se alista em uma guerra cada vez mais desgastada, enquanto atividades antibelicistas e antigovernamentais atingem um patamar desesperador. Até que, às vésperas da ofensiva contra o Vietnã e no auge da Era dos Direitos Civis, surge um filme independente realizado longe dos holofotes de Hollywood. Ambientado em uma fazenda próxima a Pittsburgh, na Pensilvânia, A Noite dos Mortos-Vivos trata da sociedade estadunidense contemporânea. A obra de Romero critica o americanismo - espécie de “ideologia nacional”, reforçada no pós II Guerra Mundial, que pressupõe o individualismo, a defesa das liberdades políticas, o patriotismo acrítico, a valorização da religião e confiança nas autoridades e nas instituições -, registra a desestruturação da família nuclear e, mais do que isso, faz uma projeção de 1968 como nenhum filme antes dele. Segundo Douglas Kellner, os medos universais e primordiais são o objeto do gênero do terror. Ao apresentar imagens horríficas da vida, o gênero manipula temores humanos relacionados à doença, à desintegração do corpo, à violência e, principalmente, à morte. Dessa maneira, o cinema pode apresentar, muitas vezes de forma simbólico-alegórica, os anseios e as hostilidades mais profundas da sociedade retratada em momentos de insegurança econômica. A Noite dos Mortos Vivos logo se transformou em clássico do horror, pela leitura singular de fins dos anos 60. Representa um trabalho seminal cuja importância relaciona-se à formulação de um novo paradigma: ao desatar a correspondência entre zumbi e religião, deixando de lado a antiga conotação mística de origem vodu, George Romero introduziu uma epidemia que reergue cadáveres, dotando-lhes de inexplicável instinto antropofágico. Seres violentos, como a época em que surgiram. Para tanto, o cineasta combinou o zumbi com um monstro canibal do folclore árabe (ghul – traduzido para o inglês como o ghoul), e reforçou a narrativa com elemento de seriedade moral até então mantido a parte do gênero do horror. Romero explica que seus zumbis simbolizam tanto uma reviravolta radical no mundo quanto uma crônica sócio-política dos tempos. Ao introduzir uma nação subjugada por forças ocultas, irracionais e indestrutíveis, o filme propaga as ansiedades da vida em tempo de incertezas teológicas e políticas. Enquanto acusação da vida moderna, A Noite dos Mortos Vivos sugere que os Estados Unidos estejam demasiado desarticulados, naquele momento histórico, para sobreviverem à violenta crise da Guerra do Vietnã. Em suma, o contexto que permeia a criação de Romero certamente contribuiu na sua construção. Percebe-se em A Noite dos Mortos Vivos elementos característicos da sociedade norte-americana dos derradeiros anos de 1960: os noticiários televisivos que não merecem confiança, a conspiração militar e governamental que objetiva manter o público distante de segredos perigosos, o fracasso das boas intenções, o herói negro assassinado. Nesse sentido, A Noite dos Mortos Vivos foi algo inédito e que se mantém atual. Sua vasta significância representou um abalo para a indústria cinematográfica, um golpe na supremacia hollywoodiana e uma inspiração para os cineastas independentes.

Bibliografia

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DILLARD, R. W. Night of the living dead: it’s not like just a wind that’s passing through. In: WALLER, Gregory (ed.). American horrors: essays on the modern American horror film. Urbana and Chicago: University of Illinois Press, 1987.

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HOBERMAN, J. ROSENBAUM, J. Midnight movies. New York: Da Capo, 1983.

KELLNER, Douglas. A Cultura da Mídia – estudos culturais: identidade e política entre o moderno e o pós-moderno. Bauru: EDUSC, 2001.

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VENTURA, Zuenir. 1968: o ano que não terminou. SP: Círculo do Livro, 1988.

WALLER, Gregory (ed.). American horrors: essays on the modern American horror film. Urbana and Chicago: University of Illinois Press, 1987.