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  Título
As imagens no devir do mundo
Autor
César Geraldo Guimarães
Resumo Expandido
Buscando delinear as funções assumidas pela imagem na contemporaneidade e as atitudes assumidas pelo espectador, retomamos e levamos mais adiante a periodização que Serge Daney esboçou em “A rampa”. Depois de diferenciar a cenografia do cinema clássico (com sua profundidade simulada) e a do moderno (que transformou a tela em superfície rasa), Daney apontava para um modo de composição da cena no qual o fundo da imagem deslizava sobre outra imagem e situava o espectador não mais na borda de uma ribalta, mas diante de um estúdio. Essa outra cenografia surgira justamente no momento em que a televisão havia superado a imagem achatada e vencido o bloqueio da pulsão escópica (ambos teimosamente sustentados pelo cinema moderno), substituindo-os pela falta de profundidade e pela “espe(ta)cularização” de tudo.

O processo no qual televisão arrematou e traiu o cinema moderno encontra seu ápice nos dias de hoje. Diante da atual profusão das estrelas anônimas e exibicionistas nos reality shows televisivos, ninguém se lembra mais de Harriet Andersson, a atriz de Monika, de Bergman, que quebrara a ilusão da cena ao encarar diretamente o espectador (o olhar mais triste da história do cinema, diria Godard). Atualmente estamos envolvidos por uma cenografia expandida que capturou a forma-cinema tão somente para intensificar os efeitos do espetáculo. Acompanhando a maneira que com Jean-Louis Comolli tem perseverado em identificar as táticas com que os filmes contrariam o espetáculo, indicamos três traços que estruturam essa nova cenografia do olhar. A composição da cena convoca a performance exibicionista e esclarecida, em um processo de auto mis en scène controlado (que se quer sem resto e sem impensado), no qual os sujeitos filmados desfrutam cinicamente dos efeitos de assujeitamento que o dispositivo lhes impõe. O mundo representado nas imagens é tomado pela hipervisibilidade e pelo combate ao fora-de-campo, pois a vontade de tudo mostrar recalca a incompletude constitutiva do quadro. O espectador, por sua vez, empurrado para a condição de consumidor satisfeito, é eleito Senhor das imagens: em sua pretensa onipotência ele pode ignorar que não vê tudo, pode extrair um gozo da facilidade que o dispositivo lhe oferece, graças aos recursos da interatividade ou da tecnologia 3D, que reforçam tenazmente a impressão de realidade por meio de um atordoante investimento na percepção sensorial, na tentativa de diminuir a distância entre a tela e o lugar do espectador (aquilo que Daney denominava “a rampa”).

À primeira vista, esta descrição parece invocar aquele cenário prefigurado por Guy Debord, no qual o espectador foi, paradoxalmente, desalojado pela onipresença do espetáculo, conforme lemos na tese 30: “o espectador não se sente em casa em lugar algum, pois o espetáculo está em toda parte. ” O objetivo desta exposição, contudo, é o de avaliar criticamente o alcance heurístico e analítico da noção de espetáculo (tal como formulado por Debord) quando utilizado para compreender o atual regime de visibilidade no qual nos situamos e, ao mesmo, descrever como a escritura de certos filmes assume o papel de “um sismógrafo capaz de registrar as tensões que trabalham o mundo-como-espetáculo” (segundo a expressão de Comolli. Para tanto, vamos comentar alguns motivos retirados dos filmes de Jia Zhang-Ke (Sill Life, Dong, 24 City e The world).

Nossa hipótese de trabalho é de que a tarefa política e estética dos filmes nesse novo regime de visibilidade passa pelos embates entre as lógicas de incorporação e de encarnação (segundo a formulação de Marie José Mondzain) e a atividade de julgamento crítico do espectador (em contraposição àquela figura de traços autistas e catatônicos pintada por Debord em A sociedade do espetáculo nas teses 217, 218 e 219, ao estabelecer um paralelismo entre a ideologia e a esquizofrenia.



Bibliografia

COMOLLI, Jean-Louis. Ver e poder. A inocência perdida: cinema, televisão, ficção, documentário. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2008.

COMOLLI, Jean-Louis. Cinéma contre spectacle. Lagrasse: Verdier, 2009.

DANEY, Serge. A rampa. São Paulo: Cosac Naify, 2007.

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

MONDZAIN, Marie José. L’image peut-elle tuer? Paris: Bayard, 2002.

MONDZAIN, Marie José. Le commerce des regards. Paris: Seuil, 2003.

MONDZAIN, Marie José. Homo spectator. Paris: Bayard. 2007.

RANCIÈRE, Jacques. Le spectateur émancipé. Paris: La Fabrique, 2008.