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  Título
O documentário animado e a leitura não-ficcional da animação
Autor
Jennifer Jane Serra
Resumo Expandido
O documentário animado, filme de caráter híbrido, se oferece como uma tendência do cinema documentário na qual a animação é utilizada como suporte para representar fatos e aspectos do mundo real. Esse gênero vem ganhando notoriedade nos últimos anos, especialmente com a premiação em festivais de cinema e de documentário de filmes como Ryan (Oscar de curta metragem de animação em 2004), Dossiê Rê Bordosa (menção honrosa no 13˚ Festival É Tudo Verdade), Slaves (melhor curta metragem no International Documentary Film Festival Amsterdam 2008) e Valsa com Bashir (Globo de Ouro de filme estrangeiro 2009). A forte associação da animação com o universo do irreal, do imaginário e infantil – decorrente, em parte, pelo sucesso dos cartoons americanos e dos filmes dos estúdios Disney, e a própria natureza do meio, que evidencia a sua construção e a impossibilidade de ser este um meio objetivo – sublimou o potencial da animação para tratar de aspectos do mundo real. Ao mesmo tempo, a canonização de um modelo de filme documentário associado a uma noção estrita de “realismo”, herança da grande influência exercida pelo Cinema Direto americano, dispôs a animação e o documentário em campos opostos, tornando o documentário animado (ou animated documentary, como é mais conhecido) uma espécie de oximoro.

Compreendendo o documentário como um discurso sobre o mundo histórico, e, a existência de uma tradição do uso da animação no cinema documentário (que remonta aos filmes de Len Lye na GPO de John Grierson, Norman MacLaren na NFB do Canadá e dos filmes de propaganda política dos anos 40) podemos entender o documentário animado como uma categoria de documentário que explora o tratamento criativo do real, em muitos casos para trabalhar uma subjetividade, pois, esse gênero de filme possui a qualidade de poder tornar visíveis os pensamentos e sentimentos das pessoas, apresentando mais do que câmera é capaz de captar. Filmes como Break the silence: kids against child abuse, de 1994, de John Canemaker e os filmes da série inglesa Animated Minds, por exemplo, possuem essa habilidade de penetrar no espaço interno dos personagens e “retratar o invisível”.

Para compreender como filmes de animação podem ser apreciados como documentários, mesmo com toda a tradição do modelo imposto pelo Cinema Direto, podemos recorrer à análise semiopragmática proposta por Roger Odin. O objetivo da semiopragmática é entender como o filme é compreendido dentro da perspectiva de que tanto a realização como a leitura dos filmes são práticas sociais programadas. Segundo Odin, um filme pertence ao conjunto documentário quando integra em sua estrutura a instrução para pôr em ação uma leitura que o autor nomeia como “documentarisante”. Através dessa leitura, o espectador constrói a imagem de um enunciador, pressupondo a existência deste no mundo real. É a existência pressuposta desse enunciador real que garante a confiança sobre as asserções propostas pelo filme.

Tanto elementos internos aos documentários animados, como os créditos e a banda sonora quase sempre constituída de entrevistas, como os elementos externos podem conduzir o espectador a uma leitura documentarisante. O tratamento criativo da realidade operado pelo documentário animado permite que materiais de composição fílmica eminentemente ficcionais, como por exemplo, desenhos, bonecos feitos de plasticina, montagens e computação gráfica, ganhem a textura documental a ponto do filme poder ser indexado como documentário. Filmes como os produzidos por artistas como Len Lye e Norman McLaren ou aqueles classificados como documentários animados subjetivos trabalham com a modulação desses materiais, atribuindo-lhes sentidos, com o intuito de tornar transparente no filme pensamentos, sentimentos, percepções e outros aspectos subjetivos, fazendo visível o invisível.

Bibliografia

ODIN, Roger Film documentaire, lecture documentarisante. In: Cinéma et Réalités. CIEREC, Université de Saint-Étienne, 1984, p. 263-78. RAMOS, Fernão Pessoa. Teoria Contemporânea do Cinema. Vol. 2: Documentário e Narrativa Ficcional. São Paulo: Senac Editora, 2005. WARD, Paul. Documentary: the margins of reality. Great Britain: Wallflower Paperback, 2005. WELLS, Paul. Understanding Animation. New York: Routledge, 1998.