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  Título
CONSUMO CINÉFILO E CULTURA CONTEMPORÂNEA: UM PANORAMA
Autor
Rodrigo Almeida Ferreira
Resumo Expandido
A partir do momento que se esboçam gerações que, desde cedo, tiveram contato com o ciberespaço, que nasceram numa sociedade onde a televisão e aparelhos domésticos de reprodução audiovisual já estavam estabilizados, que naturalmente se aproximaram das mídias digitais, novidades tecnológicas e de toda lógica de convergência, surgem práticas diferentes de interação e de veiculação do conhecimento entre o indivíduo e os outros indivíduos, entre o indivíduo e o mundo e entre o indivíduo e o seu próprio consumo. Neste contexto se estrutura a cinefilia contemporânea: uma espécie de atualização da forma profunda de se relacionar com o audiovisual, que se vê condicionada por um desenvolvimento tecnológico baseado na interconexão entre computadores, na criação de comunidades virtuais, na ascensão da crítica cultural na internet, no visível aumento da velocidade de transferência de dados e na ampliação de interfaces entre as mídias digitais. Na internet alguns se acomodam, outros se agitam: montagem de fóruns de compartilhamento de filmes raros, blogs que disponibilizam legendas em diversas línguas, revistas que se especializam em discorrer sobre os filmes que a maioria não viu.

Procuramos desvendar a tradição cinéfila desde seus primórdios, repudiar a morte da cinefilia apontada por Susan Sontag em 1996, pontuando rupturas e continuidades de recepção e referências e de antemão ressaltando um princípio anterior: o de que o cinema nos deu muito, mas não nos deu nada, que apesar da dificuldade em encontrar ‘A’ imagem num mar de imagens, permanece como oráculo de potencial epifania, fazendo com que o acúmulo dos anos não se torne pressuposto para a substituição do deslumbramento pelo conhecimento. Retoma-se o princípio do cinema como “um momento de liberação do olhar, de revelação ou de recuperação de algo perdido” (XAVIER, 2007, p. 23). A cultura cinéfila apresenta um forte senso de intencionalidade e consciência, traçando caminhos e estabelecendo regras de consumo e recepção próprias, que se desviam da padronização insurgente através do véu dos produtos personalizados seriais.

Dentre os jovens cinéfilos entrevistados, para todos foram marcantes dois momentos: o primeiro, ainda crianças, como magia equilibrada entre o fascínio e o assombro; o segundo, durante a adolescência, a partir de alguns filmes que os levaram ao abrupto ‘pensar’ e de entender o cinema como sistema amplo. Desenvolveram uma relação profunda com a televisão e com as locadoras em suas formações, são mais permissivos em relação a dublagens, entretanto, em nosso corpo de entrevistados, a maioria quase não aluga mais filmes hoje, baixam pela internet, pesquisam na rede, discutem por fóruns e listas virtuais. Defendem a internet como “meio democratizante que não apenas age em nível mundial e possibilita o acesso à cultura cinematográfica aos que não moram nas grandes metrópoles, mas também por dar a eles o controle de seus filmes amados” (VALCK; HAGENER, 2006, p. 13).

No entanto, esta atitude leva ao risco da ditadura da auto-referência e vela o acesso ao desconhecido e ao raro ao propiciar a perda da errância, lógica impávida da biblioteca, que facilita o encontro com o que não estávamos procurando. Fortalece-se, assim, a importância de confluírem recomendações, aproximarem hierarquias fundadas em diferentes pontos-de-vista, intensificarem a participação em comunidades virtuais, a escritura reflexiva de críticas e ensaios, o diálogo, a fundação de cineclubes que assumam a internet como cinemateca virtual. Temos neste último, indivíduos que se mostram como encruzilhadas entre todas as cinefilias (35mm x DVD; privada x pública; gêneros específicos): baixam filmes, assistem em casa sem cerimônia, mas preferem a tela grande, escondem uma fascinação pela película, repudiam quem atende celular durante o filme, quem se comporta como se estivesse na sala de casa, vagueiam sem contradição entre o cinema como espetáculo e como meditação. Revestem de rigor seus visuais desleixados.
Bibliografia

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001  BAUDRILLARD, Jean. Sistema dos Objetos. São Paulo: Perspectiva, 2002.

BENJAMIN, Walter. "A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica" . In: LIMA, Luiz Costa. Teoria da Cultura de Massa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.

CAMPBELL, Colin. A Ética Romântica e o Espírito do Consumismo Moderno; tradução Mauro Gama. Rio de Janeiro: Rocco, 2001.

CANCLINI, Néstor Garcia. Consumidores e Cidadãos: conflitos multiculturais da comunicação . 3a Edição. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1999

HAGENER, M.; VALKE, M. (orgs.) Cinephilia: Movies, Love and Memory. Amsterdam: Amsterdam Press, 2005.

SONTAG, S. The Decay of Cinema. New York Times, 26 de fevereiro de 1996. [artigo]

XAVIER, Ismail. Maquinações do olhar: a cinefilia como “ver além”, na imanência. In MÉDOLA, Ana Sílvia Lopes, ARAÚJO, Denize Correa, BRUNO, Fernanda (orgs). Imagem, visibilidade e cultura midiática. Livro da XV Compôs. Porto Alegre: Sulina, 2007.