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  Título
O soundscape da modernidade: os Sound Studies e o som no cinema
Autor
José Cláudio Siqueira Castanheira
Coautor
Simone Pereira de Sá
Resumo Expandido
Este trabalho tem por objetivo discutir a contribuição da perspectiva dos Sound Studies – em especial nos trabalhos de Jonathan Sterne, Emily Thompson e Rick Altman – à análise do som no cinema.

Retomando premissas comuns aos autores, nosso ponto de partida para a discussão é o de que as mudanças tecnológicas ao longo da história da produção e exibição cinematográficas devem ser articuladas a uma série de modificações em outras práticas comunicacionais e em especial ao que Jonathan Sterne chama de “regime sonoro da modernidade”, que pode ser traduzido como o momento em que o som torna-se objeto de conhecimento – autônomo e isolado dos outros sentidos. A articulação desse conjunto de fatores resulta em um modelo de escuta “timpânico” que pautará as tecnologias de gravação e reprodução sonora a partir de fins do século XIX.

Na primeira parte do texto, interessa-nos compreender em detalhes esse modelo de escuta, demonstrando, paralelamente, como ele pôde ser articulado a determinados códigos – como o de realismo e de hierarquias narrativas – que predominaram no cinema desde o estabelecimento da reprodução sonora em sincronismo com a imagem.

A seguir, destacamos a contribuição de Emily Thompson ao debate com sua pesquisa sobre a construção do “som moderno” das salas de cinema. Em diálogo com Sterne, a autora demonstra como um novo espaço sonoro surgido nos anos 30/40 nas grandes metrópoles propicia o aperfeiçoamento de novos ambientes e métodos de contenção de ruídos não desejáveis, onde materiais isolantes e mecanismos de mensuração das ondas sonoras favoreceram um domínio técnico (ou uma tentativa) da propagação do som no espaço.

Neste contexto, escritórios isolados acusticamente, eletrificação de mecanismos de gravação e reprodução, a influência de meios como o rádio e o telefone são parte de um mundo que passa a se ouvir de forma diferente, cuja escuta está indiscutivelmente associada a condições tecnológicas.

A partir dos argumentos dos autores, pretendemos, portanto, demonstrar que a própria ideia de um modelo de escuta tipicamente cinematográfico foi – e ainda é – intensamente atravessada pelo estabelecimento de novos modelos perceptivos, por sua vez articulados ao surgimento de novas mídias. Seguindo a proposta de Rick Altman, de que a narrativa cinematográfica, com sua intensa codificação, só foi possível a partir da herança de práticas anteriores, não necessariamente cinematográficas, vamos sustentar, como conclusão, o argumento de que o surgimento de uma nova relação com o objeto sonoro, a partir de determinado período, em que este passa a ser visto não apenas como um fenômeno acústico natural, mas como um sinal elétrico, passível de ser medido e manipulado, vai contribuir para a modificação de estúdios de gravação e salas de exibição. Esta nova forma de compreender o som permeia uma série de relações que não são da esfera do cinema exclusivamente.

Assim, entendemos que, em conjunto, a contribuição dos autores para o debate é o deslocamento da discussão de uma história linear dos aparatos tecnológicos, obrigando-nos a pensar de maneira complexa a articulação entre práticas sociais, mídias e tecnologias. O cinema das primeiras décadas do século XX refletiu esse contexto de forma intensa, tornando-se uma referência no que concernia à domesticação do som e a sua transformação: de evento acústico, de ondas sonoras dispersas caoticamente, em elemento sob controle rígido dentro de um sistema.
Bibliografia

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SCHAFER, R. Murray. A afinação do mundo. São Paulo: UNESP, 1997.



STERNE, Jonathan. The audible past: cultural origins of sound reproduction. Durham: Duke University Press, 2003.



THOMPSON, Emily. The soundscape of modernity: architectural acoustics and the culture of listening in America, 1900-1933. Massachusetts: The MIT Press, 2002.



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