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  Título
As imagens, os seus circuitos e modalidades expositivas: o Ita-jornal
Autor
alice dubina trusz
Resumo Expandido
Este estudo tem por interesse central o Ita-Jornal, cinejornal produzido e exibido em Porto Alegre entre setembro e outubro de 1927 pela ITA-Film. Concentrado nos acontecimentos da cidade, o Ita-Jornal foi elogiado pela imprensa diária e periódica da época pela sua “excelente técnica de confecção, nitidez de fotografia e belo critério da seleção dos motivos filmados”. Exibido em diferentes cinemas, estreava sempre nas salas do centro e circulava a seguir pelas salas dos arrabaldes. Respondiam pela direção e fotografia das produções Eugênio Centenaro Kerrigan e Thomaz de Túlio, respectivamente. Os “motivos filmados” eram “as últimas novidades locais”, selecionadas pela variedade e atualidade temática, mas também por um intuito mais promocional que informativo. Se a ousada edição de estréia ofereceu-se aos espectadores a experiência imaginária de voar num avião e percorrer as ruas da cidade num automóvel “a grande velocidade”, permitindo exercícios perceptivos do olhar e novas perspectivas de visão, as edições seguintes versaram sobre acontecimentos locais recentes como campeonatos esportivos, eventos militares e cívicos, festas populares, lazer e sociabilidades das elites, promoção de autoridades, do alto comércio local, da própria produtora e demais setores envolvidos com o cinema, como a distribuição e exibição. As escolhas temáticas indicam conformidade com o padrão das revistas ilustradas da época, reunindo temas amenos e pitorescos, de amplo alcance público, ou registrando práticas e eventos de certa forma fechados, pois realizados em clubes, sociedades e empresas privadas, aos quais o cinema acabava abrindo acesso indireto aos espectadores, simultaneamente à promoção da distinção social e política daqueles cujas imagens eram reproduzidas nas telas. A maior parte dos acontecimentos tratados nos Ita-jornais também foi objeto de interesse da imprensa diária (Correio do Povo e Diário de Notícias) e periódica (revista A Tela), rendendo matérias textuais e reportagens fotográficas. A produção e circulação de imagens e textos de diferentes gêneros em diferentes suportes, linguagens e veículos sobre certos acontecimentos lhes conferiu uma divulgação ampla e diversificada, à qual deve ter correspondido uma apropriação social igualmente heterogênea. Considerando que tanto as escolhas temáticas quanto formais empreendidas colaboraram para a valorização e legitimação sociais daquilo que mostraram e ocorreram em detrimento de outras imagens e perspectivas possíveis, estes filmes nos instigam a pensar os seus modos e condições de produção e os interesses e expectativas que os orientaram, nos remetendo igualmente aos padrões visuais que fundaram o olhar lançado àqueles eventos. A idéia é pensar a questão da visualidade como ela se coloca e caracteriza culturalmente em determinado contexto histórico. Ou seja, pensar as relações dos cinejornais com outros gêneros de imagens e textos então disponíveis a partir da consideração da especificidade de cada veículo/suporte, das suas diferenças formais e expressivas, observando se houve complementaridade ou oposição, diálogo, acréscimo ou redundância entre os diferentes tipos de registro. O levantamento dessas ações deve explicitar a rede de relações e práticas que fundou a produção, circulação e apropriação das representações, evidenciando os sentidos que foram construídos pelos contemporâneos sobre o cinema e a cidade, os sentidos que foram atribuídos às imagens ou que elas assumiram ao longo de sua trajetória social. Busca-se assim o “valor cognitivo” da imagem, reconhecendo-se a sua “capacidade de produzir história e de ser pensada como registro que tem a sua própria história” (Menezes). Considerar as duas facetas significa ter presente que as imagens são simultaneamente documentos (hoje e talvez no passado) e componentes da vida social, que elas fazem parte do cotidiano em várias dimensões, assumindo usos e funções simultâneos ou sucessivos.
Bibliografia

BERNARDET, J-C. Historiografia clássica do cinema brasileiro: metodologia e pedagogia. São Paulo: Annablume, 1995. CHARTIER, R. O mundo como representação. Estudos Avançados, São Paulo, n. 11 (5), p. 173–191, 1991. GOMES, P. E. S. 'A expressão social dos filmes documentais no cinema mudo brasileiro (1898- 1930)'. In: CALIL, C. A. e MACHADO, M. T. (orgs.), Paulo Emilio: um intelectual na linha de frente. SP/RJ, Brasiliense/Embrafilme, 1986. LE GOFF, J. Documento/Monumento. Enciclopédia Einaudi. Vol. 1. RJ: Imprensa Nacional, 1984. MENESES, U. T. B. Fontes visuais, cultura visual, História visual. Balanço provisório, propostas cautelares. Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 23, n. 45, p. 11-36, 2003. MORETTIN, E. V. “Dimensões históricas do documentário brasileiro no período silencioso”, Revista Brasileira de História, v. 25, n. 49, São Paulo, jan.-jul. 2005.