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  Título
A produção documentária de Thomas Farkas:do direto ao experimentalismo
Autor
Egle Müller Spinelli
Resumo Expandido
Thomas Farkas, fotógrafo e produtor, foi um dos precursores da fotografia moderna no Brasil. A partir dos anos 1960 passa a se aventurar no campo do cinema documentário. Reúne um grupo de realizadores para fazer filmes sobre o Brasil, principalmente na abordagem de temas sobre os costumes, crenças, modos de vida e sobrevivência do povo brasileiro. Os primeiros documentários produzidos e fotografados por Farkas foram realizados entre 1964 e 1965 e correspondem a quatro médias-metragens, Viramundo, de Geraldo Sarno, Subterrâneos do Futebol, de Maurice Capovilla, Memórias do Cangaço, de Paulo Gil Soares e Nossa Escola de Samba, de Manuel Gimenez, compilados na forma de um longa de episódios em 1968, chamado de Brasil Verdade. Estes filmes são considerados clássicos do documentário brasileiro por apresentarem uma estrutura narrativa bastante aprimorada em termos de contextualização das histórias: mostram diferentes pontos de vista do fato abordado, utilizam um narrador em off de uma maneira equilibrada, ou seja, não predominante como ocorre na maioria dos documentários realizados até o início dos anos 60, utilizando as sonoras dos depoentes de maneira criativa e referencial para a produção documentária brasileira posterior ao período.



Estes filmes documentários exploram imagens e sons que tentam mostrar a realidade dos fatos sem que a câmera interfira no cotidiano dos atores sociais retratados, o que demonstra a experimentação com as técnicas do cinema direto. Mesmo assim, um narrador em off fornece informações pontuais sobre a realidade retratada, um discurso claro e objetivo que pode conduzir o espectador a uma idéia pré-concebida e o induzir a acreditar em uma verdade absoluta, um recurso utilizado desde o início da história do documentário e muito frequente nos documentários televisivos atuais.



Nos filmes iniciais produzidos por Thomas Farkas outro recurso possível da época foi o uso de depoimentos pela possibilidade técnica em gravar o som direto. Inicia-se a experimentação com a técnica de entrevista, o que permite a intercalação de um discurso mais arbitrário, conduzido pela narração em off, com um discurso falado pelos próprios personagens retratados nos documentários, o que resulta em uma forma mais heterogênea e democrática de se construir a narrativa fílmica, por valorizar o ponto de vista falado ou executado pelo ator social ao desempenhar o seu próprio papel de personagem de uma história real, em seu local de trabalho, nas suas manifestações culturais, sociais, políticas ou religiosas.



Do ano de 1968 a 1970, Farkas inicia o que foi denominado nos anos 1990 por Eduardo Escorel de Caravana Farkas. São 19 documentários no nordeste que apresentam uma heterogeneidade de temas e estruturas narrativas. Estes filmes se constituem de pequenas amostragens de um Brasil que vinha perdendo seus costumes e tradições culturais e econômicas devido ao crescente desenvolvimento urbano e industrial, ocasionando a migração dos trabalhadores do campo para as cidades em busca de melhores condições de sobrevivência.



Na década de 1970, Farkas continua a produzir, fotografar e dirigir documentários. Nesta época percebe-se que os filmes trazem uma maturidade na articulação entre a narração em off, as sonoras, as trilhas sonoras, as imagens e sons ambientes. Os recursos técnicos para trabalhar o som direto evoluem, tornando os equipamentos mais leves para retratar com mais fidelidade e proximidade os temas propostos. Assim, o último filme escolhido para fechar os 15 anos iniciais de produção documentária de Farkas é Hermeto, Campeão (1980), que chega ao experimentalismo no trabalho do som com a imagem em que, apenas por meio de depoimentos do próprio Hermeto, sempre em off, o filme mistura sons executados pelo músico relativos à tempos e espaços diferentes, re-criando o universo de Hermeto e conduzindo o formato documentário ao deleite da reflexão, performance e poesia.

Bibliografia

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