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  Título
O conceito de comunidade imaginada aplicado ao filme Be Kind Rewind
Autor
Rogerio Secomandi Mestriner
Resumo Expandido
No filme Rebobine Por Favor, a comunidade de um bairro de Passaic, New Jersey, se une para recuperar o acervo destruído de filmes VHS de uma videolocadora decadente. Dispondo de poucos recursos, eles reencenam coletivamente as obras destruídas de forma amadora e acabam fazendo grande sucesso na comunidade local. Após serem impedidos por agentes federais de continuarem com as refilmagens, a comunidade realiza um filme original sobre Fats Waller, músico que teria vivido nesse mesmo bairro. Esse filme é exibido para a comunidade e recebido com grande ovação do público.



O processo de refilmagem convida as pessoas da comunidade a refletirem sobre os filmes em um processo revelador, no qual as obras coletivas representam a memória social dos filmes, através das refilmagens. É uma oficina de comentários metalingüísticos, em um processo didático que naturalmente avança em direção a produção de obras próprias da comunidade, que acabam por identificar sua própria estética e uma articulação da linguagem compreendida facilmente pelos integrantes desse grupo próprio , uma vez que também foi desenvolvida em conjunto.



O ato de fazer filmes e comentá-los serve como agente unificador da comunidade retratada no filme, processo que encontra paralelo nos estudos de Benedict Anderson apresentados em seu livro Comunidades Imaginadas. Ao confrontar o universo fílmico de Rebobine Por Favor com os conceitos de “comunidade imaginada” e “capitalismo editorial”, estudados a fundo por Anderson, é possível reconhecer tais processos descritos acontecendo na comunidade de Passaic, sendo então possível identificar a construção da identidade de uma comunidade dentro da narrativa fílmica.



Benedict Anderson sustenta a idéia que determinada comunidade é capaz de, por meio da consciência nacional, satisfazer o vazio emocional gerado pela desintegração das antigas redes de comunidades reais. Ou seja, a condição nacional manifesta a necessidade que os membros de determinada nação têm de participar de uma coletividade com a qual possam se identificar. O elemento que talvez mais catalisa e faz frutificar a busca pela coletividade é o capitalismo editorial, permitindo que as pessoas, em números sempre maiores, pensem sobre si mesmas e se relacionem com as demais de maneiras radicalmente novas.



Ainda que amador, o domínio da linguagem cinematográfica propiciado pelas refilmagens colabora para a construção de uma “comunidade imaginada”, o que estimula a comunidade de Passaic na busca por sua identidade própria e faz com que se vejam sob um novo ângulo, fornecendo-lhes uma voz distinta e autêntica.

Bibliografia

ANDERSON, Benedict. Comunidades Imaginadas: reflexões sobre a origem e difusão do nacionalismo. São Paulo : Companhia das Letras, 2008.



BAKHTIN, Mikhail Mikhailovich. The Dialogic Imagination. Austin : Texas University Press, 1981.



GONDRY, Michel. You’ll Like This Film Because You’re in It : The Be Kind Rewind Protocol. New York : PictureBox, 2008.



HILL, Derek. Charlie Kaufman and Hollywood's Merry Band of Pranksters, Fabulists and Dreamers: An Excursion Into the American New Wave. London : Kamera Books, 2008.



LINS, Consuelo. O Documentário de Eduardo Coutinho : Televisão, Cinema e Vídeo. São Paulo : Jorge Zahar Ed., 2004.