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  Título
As reverberações da classe média no cinema nacional contemporâneo
Autor
Mariana Souto
Resumo Expandido
Ao longo da história, os estudos cinematográficos têm sido predominantemente empreendidos através de análises estéticas e semióticas. Sem desconsiderar essa perspectiva, no presente artigo buscamos estudar o cinema enquanto prática cultural. Com esse objetivo, exercitamos uma visão interacional do cinema, isto é, uma abordagem que não o considere em dimensões textuais centrípetas, mas sim inserido em um processo comunicativo e social mais amplo.



Para lançar luz sobre as complexas relações entre cinema e sociedade, propomos uma análise cultural do cinema, posição que se erige a partir do materialismo cultural de Raymond Williams. O autor britânico parte de uma tradição marxista mas realiza uma profunda revisão em conceitos - tais como base, superestrutura e determinação - que levariam a uma não desejada concepção da arte como reflexo de uma sociedade. Em suas formulações, a superestrutura cultural não é entendida como um desdobramento de uma base socioeconômica estática. Se a noção de determinação é flexibilizada, perdendo o significado de controle total sobre um processo para se afinar com uma definição que envolve a delimitação de limites e pressões, base e superestrutura são vistas como ambas dimensões dinâmicas que se interconstituem.



Partimos do pressuposto de que a arte é produção – e não apenas reprodução – do modo de vida de uma sociedade. Nosso propósito é analisar a cultura como um modo de pensar a totalidade social. Promove-se, assim, um deslocamento na compreensão das obras artísticas de produtos para práticas sociais. Trata-se de olhar para o objeto menos para isolá-lo e elucidar seus componentes e mais para compreender seus atravessamentos sociais e culturais.



A partir dos fundamentos da análise cultural, interessa-nos discutir as relações entre o cinema nacional contemporâneo e um grupo social específico, qual seja, a classe média. O cinema brasileiro, de seus primórdios até os dias atuais, tem forte tradição na representação de grupos marginalizados e excluídos, tais como moradores de favela ou periferia, sertanejos e miseráveis. Contudo, vemos conviver com estas representações o tratamento deste grupo social – a classe média – que, em menor ou maior medida, também esteve presente ao longo da história do cinema nacional.



Apesar de sua presença nessa trajetória, acreditamos que atualmente a classe média tem se mostrado temática especialmente relevante. A simples constatação da existência de filmes com personagens ou ambientações da classe, por si só, não é necessariamente significativa. No entanto, acreditamos que essa presença configure uma corrente no contexto cinematográfico nacional, um possível movimento 'pós-retomada' com alguma especificidade e relevância na medida em que deixaria marcas mais consistentes no cinema, com formas próprias de expressão e traços na linguagem que apareceriam não com unanimidade, mas certamente com alguma recorrência. Não se trata, portanto, de um estudo de representação e sim de uma investigação dessas marcas.



Dentre um universo de longas de Jorge Furtado, Beto Brant e produções Globo Filmes, optou-se, neste artigo, pela análise do filme Separações (2002), de Domingos de Oliveira. Para estudar como a classe média reverbera, transforma e influencia o conteúdo e a forma dos filmes utilizamos a metodologia de modos de endereçamento (Chandler), que nos ajuda a ver como relações entre artista e vida social, endereçador e endereçado, são construídas em um texto. Os operadores temática, ambiente de cena e direcionamento foram frutíferos para desenvolver nossa percepção de que filmes dessa tendência 1) estariam se voltando para temáticas de relações humanas, amorosas e crises conjugais; 2) sua ambientação estaria privilegiando o espaço urbano, zonas nobres de grandes cidades, com ênfase para interior de apartamentos e 3) os filmes estariam incorporando formatos intimistas na relação com o público, expondo a intimidade e a subjetividade dos personagens por um enfoque individualista.
Bibliografia

CEVASCO, Maria Elisa. Para ler Raymond Williams. São Paulo: Paz e Terra, 2001.



CHANDLER, Daniel. Semiotics for Beginners Disponível em

www.aber.ac.uk/media/Documents/S4B/semiotc.html.



EDUARDO, Cléber. O amor sem sexo e o sexo sem desejo – imagens de classe média”, disponível em http://www.contracampo.com.br/57/classemedia.htm



ELLSWORTH, Elizabeth. “Modos de Endereçamento: uma coisa de cinema; uma coisa de educação também.” In Silva, Tomaz Tadeu da (Org.). Nunca fomos humanos – nos rastros do sujeito. Belo Horizonte, Autêntica, 2001.



MILLS, C. Wright. A nova classe media [ White Collar ]. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1976.



ORICCHIO, Luiz Zanin. Cinema de novo: um balanço crítico da retomada. São Paulo: Estação Liberdade, 2003.



TURNER, Graeme. Cinema como pratica social. São Paulo: Summus, 1997.



WILLIAMS, Raymond. Cultura e sociedade : 1780-1950. São Paulo: Comp. Ed. Nacional, 1969.



WILLIAMS, Raymond. Marxismo e literatura. Rio de Janeiro: 1979.