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  Título
Scenario e visualização: construção de conceitos sobre cinema em O Fan
Autor
Fabricio Felice Alves dos Santos
Resumo Expandido
Da curta existência do Chaplin-Club, considerado o primeiro cineclube fundado no Brasil, em junho de 1928, podemos avaliar a atividade crítica e as formulações teóricas de seus integrantes a partir dos textos de “O Fan”. Publicado pelos cineclubistas entre 1928 e 1930, o periódico, em suas nove edições, nos legou um rico conjunto de textos sobre cinema que incluía desde críticas aos filmes exibidos no circuito até proposições teóricas que procuravam definir conceitos sobre a realização cinematográfica.

Entre os fundadores do cineclube, Octavio de Faria se destaca por ser o integrante que mais publicou textos com o objetivo de formular conceitos sobre cinema que se pretendiam abrangentes e totalizantes, adquirindo um forte caráter de teoria. Já na primeira edição de “O Fan”, de agosto de 1928, no artigo “O scenario e o futuro do cinema”, Faria irá dissertar sobre os conceitos de scenario (que pode ser entendido atualmente, por aproximação de sentido, como roteiro cinematográfico) e visualização. Para essa tarefa, lança mão de um amplo referencial, que parte de suas leituras de teóricos do cinema, passando por autores de filosofia, arte e estética, e conta ainda com a contribuição de sua própria experiência como espectador e fã de cinema.

Para Faria, o scenario ocupa lugar central na concepção da idéia cinematográfica. E para que o cinema se realize como efetiva criação artística, torna-se imperiosa a fusão da figura do scenarista e do diretor numa mesma pessoa: o diretor criador. No scenario, segundo o ensaísta, o diretor manifestaria todo o domínio da técnica e garantiria a realização de uma obra puramente baseada na visualização cinematográfica. A visualização, termo de vaga definição mesmo para o autor, seria a maior aproximação possível entre a capacidade de imaginação do realizador e a criação de imagens cinematográficas. E ao scenario caberia o sucesso dessa correspondência, o elo entre as habilidades do diretor em compreender pelos “olhos da mente” e em fazer ver pela imagem cinematográfica.

Desenvolvendo sua argumentação, Faria desdobra o scenario em dois tipos elementares que norteiam o debate sobre cinema e a recepção dos filmes pelos integrantes do Chaplin-Club: o scenario de ritmo e o de continuidade. Por ritmo, poderíamos considerá-lo como paralelo a noção posterior de montagem, termo que se tornaria mais familiar aos articulistas de “O Fan” a partir dos textos franceses sobre as vanguardas européias, principalmente a russa. O termo ritmo, nos textos do jornal, não se referindo apenas à relação dada pelo corte e montagem dos planos, corresponde também ao tempo de duração das imagens, à movimentação interna dos elementos filmados e, por fim, à sucessão dessas imagens e suas relações no todo da obra cinematográfica. Em oposição ao filme de ritmo, o de continuidade apresentaria os acontecimentos de uma história em sua sucessão de causa e efeito. Para o autor, o ideal da criação cinematográfica seria um scenario de continuidade absoluta, onde o problema da acomodação visual acarretado por cada novo plano não aconteceria. A câmera cinematográfica ganharia o valor central e seria a manifestação concreta da habilidade do diretor em realizar sua escrita cinematográfica.

Tanto o conceito de scenario quanto o de visualização, e ainda as definições de ritmo e de continuidade, encerram uma série de considerações estéticas discutidas por outros articulistas de “O Fan”, entre eles Plinio Süssekind Rocha e Aluizio Bezerra Coutinho - além do próprio Octavio de Faria, que reelabora as definições de muitos desses termos em textos posteriores. Essa conceitualização forjada nas páginas de "O Fan" sustenta não apenas as argumentações nos ensaios de cunho teórico, mas também subsidia os articulistas na recepção crítica dos filmes resenhados. A compreensão e análise desses conceitos oferecem a possibilidade de nos aproximarmos de todo um ideário sobre o cinema articulado pelo pensamento cinematográfico do grupo.
Bibliografia

AUTRAN, Arthur. Memória do Chaplin-Club. Comunicação apresentada durante a II Jornada Brasileira de Cinema Silencioso. São Paulo: Cinemateca Brasileira, 2008.

GOMES, Paulo Emilio Salles. Humberto Mauro: Cataguases, Cinearte. São Paulo: Pespectiva, 1974.

MELLO, Saulo Pereira de. O Fan, o Chaplin Club e Limite. In: AVELLAR, José Carlos et al. Seminário Cinearte. Rio de Janeiro: Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro, 1991.

MENDES, Adilson. Vanguarda sem retaguarda: o caso Chaplin-Club. In: II Jornada Brasileira do Cinema Silencioso. São Paulo: Cinemateca Brasileira, 2008.

RODRIGUES, Constança Hertz. O debate do Chaplin Club: do grupo de cinema à teoria literária. Rio de Janeiro, tese de doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura da Faculdade de Letras da UFRJ, 2006.

XAVIER, Ismail. Sétima arte: um culto moderno. São Paulo: Perspectiva, 1978.

Periódicos:

Coleção O Fan: nove edições, lançadas entre agosto de 1928 e dezembro de 1930.