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  Título
Um homem com uma câmera: camadas de um filme que se revela
Autor
Carlos Pernisa Júnior
Resumo Expandido
O que seria "Um homem com uma câmera", de Dziga Vertov (1929)? Um documentário? Um filme experimental? Uma propaganda do regime soviético? Um filme poético? Uma crônica filmada do dia-a-dia de uma cidade ou de um dia de trabalho numa cidade? A história de um dia na vida de um cameraman? Uma sinfonia visual? Uma obra metalingüística? Um filme didático? Político? Inovador na linguagem? Maiêutico, como quer Annette Michelson? Talvez ele seja tudo isso e mais. Camadas de um filme que se revela a cada nova visão. Como toda a obra de arte, a cada vez que voltamos a ela, encontramos novos traços, novas possibilidades de leitura. Em uma nova observação, novas possibilidades se abrem e o espectro se amplia.

No caso de "Um homem com uma câmera" isso parece chegar ao extremo, com a quantidade enorme de aberturas que se apresentam ao espectador. É mesmo o filme em camadas. Assim, aspectos da montagem, da captação das imagens, do caráter metalingüístico – este em suas várias dimensões – são importantes para verificar esta construção que Vertov faz com sua obra. Há uma atenção também para seu aspecto pedagógico. Além disso, a preocupação dele com a reflexão teórica sobre seu próprio trabalho indica uma série de questões a serem observadas, ainda hoje, como a teoria dos intervalos, o cine-olho, o cinema-verdade ou a vida de improviso. Existe também uma outra visão do autor que aponta para a dimensão poética da obra, falando também da crônica e do documentário e de uma sinfonia visual.

Observar todas estas questões ajuda a compreender um pouco a busca de Vertov por um certo tipo de cinema e sua preocupação com o fazer cinematográfico, unindo teoria e prática de uma forma muito particular e que, ao mesmo tempo, aponta para o universal, numa linguagem que vai além de fronteiras espaciais e mesmo temporais, já que a obra continua sendo vista e comentada, mesmo passados oitenta anos de sua realização. Há, inclusive, indicações claras da ligação de Vertov com práticas hoje correntes na televisão, principalmente nos comerciais; no vídeo, principalmente com o videoclip; e mesmo em certos tipos de cinema, onde a experimentação ainda é parte importante do processo de realização.

Este trabalho é fruto de uma pesquisa sobre Dziga Vertov e o filme "Um homem com uma câmera", feita no âmbito da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora, com outros dois professores e alunos bolsistas e que teve o apoio da Fapemig e do CNPq.
Bibliografia

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