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  Título
Transmissão da crítica no cinema moderno: Paulo Emilio encontra David
Autor
Pedro Plaza Pinto
Resumo Expandido
A noção de dialogicidade é pertinente para caracterizar a interação entre o já reconhecido crítico e conservador da Cinemateca Brasileira e os jovens cinemanovistas em pleno momento de distinção e afirmação do projeto de intervenção, entre o final dos anos 1950 e meados da década seguinte. David Neves é a figura que demarca uma das relações mais estreitas em termos de cruzamento das referências no nível do texto, tanto pelo lado de uma mimetização do estilo do “guru eterno”, quanto pela constante remissão entrelinhas ou explicitamente, na forma da citação.

O livro "Cinema moderno, Cinema Novo" é um ponto de diferenciação no modo como os textos escritos por Paulo Emilio atravessavam a convicção do importante representante e pensador do movimento, David Neves, um dos jovens mais dotados da capacidade de escuta. O que antes era um chamamento à ação e compreensão mais amplas sobre o cinema, história e preservação no Brasil, dentre textos escritos ao estilo de um ideólogo nas páginas do "Suplemento Literário" do jornal O Estado de S. Paulo, torna-se, a partir do contato mais direto, recado passado nas entrelinhas de críticas, declarações ou mesmo cartas e materiais particulares. São textos que eram escritos com a plena consciência de que seriam colecionados, daí confeccionados com o cuidado que a matéria em processo e a posição de autoridade exigem. Um sinal de proximidade, mas que se torna diretamente proporcional ao nível de exigência, é o exemplo do pedido de prefácio a "Cinema Novo no Brasil", texto que permaneceu guardado entre os papéis de Neves e que foi resgatado pelo trabalho de pesquisa ao redor do livro póstumo de textos reunidos – "Telégrafo visual: crítica amável de cinema" (2004).

A visão posterior que David Neves nutria sobre o seu livro a propósito do Cinema Novo é uma absorção da crítica do comentário de Paulo Emilio, como aparece numa entrevista, realizada no ano de 1993, pouco antes da publicação de outro livro, "Cartas do meu bar". Ele explica que o livro "Cinema Novo no Brasil" seria uma espécie de separata, que estaria ultrapassado, sendo útil somente pelo lado biográfico, pois feito de maneira improvisada, para tentar marcar “quando nasceu” o Cinema Novo. O autor sugere, inclusive, uma comparação com o melhor preparo a que submeteu o outro livro então recém-publicado.

Mesmo negando a atualidade de "Cinema Novo no Brasil", ainda permaneceria, como notamos na entrevista de 1983 a Alex Viany, a forma de definir o grupo segundo uma visão do livro de 1966: o Cinema Novo era um “estado de espírito”, ou melhor, “um estado revolucionário de espírito” (NEVES, 1966, p. 11), e depois “uma espécie de vírus” (NEVES, 1999, p. 282) que procuraria influir no campo da cinematografia. No princípio, eram encontros e amizades estabelecidas no “bar da Líder” ou no bar Vermelhinho, na frente da Associação Brasileira de Imprensa; da mesma forma, estabeleceram-se laços ao redor da movimentação do cineclube organizado na PUC do Rio de Janeiro por Nelson Pompéia. David Neves chegou a promover, no cineclube, um curso sobre cinema que contou com a presença de Paulo Emilio na condução de duas aulas, a parte mais “séria” dos encontros.

A caracterização da relação dialógica busca entender um senso de partilha de relações e de solidariedade que, mesmo sob traços ainda difusos e desordenados, teve em David Neves um artífice que balizou em "Cinema Novo no Brasil" alguns dos paradigmas para a continuidade da conversa. Ali estavam algumas respostas às ponderações de Paulo Emilio sobre a existência ou não de um movimento; ali também é possível cotejar algumas ideias consoantes com a própria reflexão de David Neves sobre os impedimentos do cinema brasileiro, pensamento que fora se estruturando nas intervenções pontuais dos anos anteriores. É útil, portanto, entender o percurso já traçado até então, reter a resposta do “papa” e projetar as mudanças decorrentes do choque de posições.
Bibliografia

COSTA, Flávio Moreira da (org.). Cinema moderno, cinema novo. Rio de Janeiro : José Álvaro, 1966.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 48 impr. Rio de Janeiro : Paz e Terra, 2005.

GOMES, Paulo Emilio Salles Gomes Crítica de cinema no Suplemento Literário. v. 1 e 2. Rio de Janeiro : Paz e Terra, 1982.

NEVES, David Eulálio. Telégrafo visual: crítica amável de cinema. São Paulo : Editora 34, 2004.

______. 1983: David Neves (Entrevista). In.: VIANY, Alex. O processo do Cinema Novo. Rio de Janeiro : Aeroplano, 1999.

______. Cartas do meu bar. 1ª ed. São Paulo : Editora 34, 1993.

______. Cinema Novo no Brasil. Petrópolis : Editora Vozes, 1966.

PAIVA, Vanilda Pereira. Paulo Freire e o nacionalismo-desenvolvimentista. Rio de Janeiro : Civilização Brasileira, 1980.

WEINHARDT, Marilene. O Suplemento Literário d’O Estado de São Paulo. 1956-1967 (Subsídios para a história da crítica literária no Brasil). São Paulo, Universidade de São Paulo, FFLCH/USP, (Dissertação de mestrado), 1982.