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  Título
Representações e atitudes diante da morte nos documentários brasileiro
Autor
Adriane Piovezan
Resumo Expandido
O Brasil perdeu 457 homens durante o periodo em que lutou na Itália durante a Segunda Guerra Mundial (1944-45). O objeto desta pesquisa é, partindo do referencial teórico e metodológico de diferentes disciplinas da área das Ciências Humanas (História, Antropologia, Sociologia, Literatura), interpretar a forma que assumem as representações institucionais e as atitudes individuais diante das mortes ocorridas em combate em solo italiano na Segunda Guerra Mundial (1939-45), contidas em diferentes suportes audiovisuais.

O tema da participação brasileira na Segunda Guerra tem sido pouco explorado pelo audiovisual. Uma primeira tentativa nesse sentido ocorreu em 1960 quando Jamil Amiden, ele próprio um ex-combatente, tentou transformar em filme o seu livro “Eles não voltaram”, mas a obra ficou inacabada. Em 1990 o cineasta Sílvio Back lança, a partir de fragmentos de cenas do filme de Amiden o seu polêmico documentário “Radio Auriverde”. Ali a morte é mencionada de forma jocosa, dentro do espírito satírico do filme.

Em 2001, a produtora BSB lança o documentário “Senta a Pua”, dirigido por Erik de Castro, sobre o Primeiro Grupo de Aviação de caça da Força Aérea Brasileira que lutou na Segunda Guerra Mundial. Com entrevistas, o documentário elabora o tema da morte a partir dos depoimentos dos pilotos, mecânicos e pessoal de terra. Ali se encontra a descrição de cada uma das mortes sofridas pelo grupo, alternando com música, fotos do morto, o número de missões que cumpriu, etc. compondo um trama dramática e comovente.

Já em 2002, a mesma produtora lança o documentário denominado “A Cobra Fumou”, dirigido por Vinicius Reis. Agora os protagonistas seriam os ex-combatentes da Força Expedicionária Brasileira (FEB) e jornalistas que cobriram a nossa participação na Campanha da Itália. Procurando fazer um documentário de “viagem”, os produtores não conseguiram dar foco definido aos depoimentos. Em relação à representação da morte, ela aparece recorrentemente, ora como trauma, ora como homenagem. Em alguns casos a morte aparece como fator determinante para enfatizar a diferença entre o herói e o não herói na guerra.

O projeto de uma trilogia de documentários sobre a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial por parte da produtora BSB, em que até o momento foram realizados dois filmes, previa também um último documentário, dedicado à luta no mar. Sabe-se que em todos eles se enfocaria o lado mais humano da vivência dos envolvidos nos conflitos, como convém a um estilo de documentário que se aproxima fortemente do drama hollywoodiano, destinado a um público de massas.

Diferente dos outros documentários, existe também o filme “O Lapa Azul” dirigido por um militar da ativa, o oficial do Exército Durval Jr. em 2007. Trata-se de um dos poucos trabalhos lançados fora do eixo Rio São Paulo, tendo como objetivo mostrar a ação do Lapa Azul, isto é, o III Batalhão do 11º. Regimento de Infantaria da FEB, o assim chamado Onze RI. O documentário procura enaltecer os feitos dos ex-combatentes e, nesse sentido, a relação com a morte aparece de forma tanto a homenagear os heróis, quanto a conferir sentido à essas perdas humanas. Destaca-se o fato de os depoimentos deste documentário foram realizados a partir do enfoque dos soldados da infantaria, certamente os combatentes que mais de perto presenciaram as mortes de seus companheiros.

Cada um destes quatro documentários cuja temática remete à participação brasileira na Segunda Guerra Mundial, apresentam especificidades referentes ao contexto histórico em que foram produzidos, ao público potencial que se destinaram. Divergiram também na opção teórica adotada pelos diretores, em relação à pesquisa e recursos imagísticos e sonoros utilizados. A partir destas variáveis de análise, e sob uma perspectiva multidisciplinar, pretende-se interpretar os diferentes modos pelos quais a representação da morte são reconstituídas/apresentadas no audiovisual brasileiro contemporâneo.



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