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  Título
O esmaecimento das fronteiras entre ficção e documentário no cinema alternativo
Autor
Roberto Marchon Lemos de Moura
Resumo Expandido
Se a historiografia sobre o cinema brasileiro, nascida nos anos 50 e desenvolvida durante os anos dos governos militares nos novos departamentos de cinema na universidade brasileira, tem como seu tema central o diálogo conflituoso entre o Cinema Novo e o Cinema Marginal, e a sequência da produção brasileira articulada ao projeto estatal, apenas ocasionalmente a pesquisa se voltou para a importante produção nacional de curtas-metragens que caracteriza o período. Alguns dos primeiros filmes dos componentes Cinema Novo foram de curta duração, como ao movimento é associada os filmes das “caravanas” Farkas – entretanto, a maior parte da produção de curtas no período, seria tarefa de uma geração de realizadores que surge nos festivais de cinema amador, principalmente no Festival JB, uma das poucas janelas que se abrem para a juventude artística e libertária depois de 1964. O fenômeno ganha importância com a construção de uma rede cineclubista pelos estados alimentada por esses festivais e pelas importantes cinematecas criadas no Rio e em São Paulo (rede que é duramente reprimida em 1968 pelo AI5), com as Jornadas da Bahia aglutinando esse recém-chegados na atividade, e com a fundação da Associação Brasileira de Documentaristas - ABD, responsável pela regulamentação em 1978 da Lei do Curta, os atrelando aos programas com longas-metragens estrangeiros – o que fomentaria a produção de um número importante de filmes.



O projeto da ABD visava criar, através da legislação, um mercado para o “filme cultural”, curtas livres de compromissos publicitários, institucionais ou comerciais. No Rio é fundada a CORCINA, uma cooperativa de realizadores, viabilizando inúmeros projetos através de formas cooperativistas de produção. A Embrafilme também atende à essa nova realidade abrindo um setor de sua distribuidora para o curta-metragem, absorvendo a proposta da ABD: a pluralização dos focos de produção e a concentração destes numa distribuidora estatal com porte para dialogar com distribuidores e exibidores. A Lei, desde o início combatida pelos distribuidores internacionais e seus aliados exibidores brasileiros, nos anos seguintes seria por eles neutralizada por meios tanto extra-legais como pela ação de seus advogados.



São aspectos centrais de uma história estética do cinema, tanto a hegemonia da linguagem ilusionista no mercado cinematográfico, como as múltiplas possibilidades e experiências de um cinema anti-ilusionista, desde as vanguardas nos primórdios e do cinema soviético, até a produção dos movimentos cinematográficos no pós-guerra. Esse cinema anti-ilusionista no Brasil é dado pela historiografia, fora casos isolados, como encerrado com o fim dos movimentos do Cinema Novo e do Cinema Marginal. Entretanto, nessa produção de mais de mil curtas-metragens, se observa-se em diversos deles o progressivo polimento na direção no documentário comunicativo e curioso contemporâneo, como da teledramaturgia “global” e de um cinema de ficção realista que se renovaria dentro do sistema de gêneros, possibilitados pela Lei também são realizados filmes autorais, militantes, poéticos, estetizantes e formalistas, não mais vinculados a um mesmo programa mas de diversas orientações estéticas e ideológicas, nos quais as referências às vanguardas internacionais, em torno dos temas da contracultura, se misturam provocadoramente com elementos da cultura afro-brasileira.



Essa comunicação se propõe, além de se referir ao contexto do cinema brasileiro da metade dos anos 60 até o final dos anos 80, a analisar alguns desses filmes - “Bahira, o grande Burlão”, “Resistência da Lua”, “Duas Histórias para crianças”, e “Nova Estrela” - examinando particularmente neles a relativização das fronteiras entre ficção e documentário, característica de seus partidos retóricos e experimentais, observando o diálogo íntimo nessa direção mantido através de seus filmes entre alguns desses realizadores.

Bibliografia

. ALENCAR, Miriam, “O cinema em festivais e os caminhos do curta-metragem no Brasil”, Ed. Artenova, RJ, 78.

. CALDEIRA, Oswaldo & SANZ, Sérgio & CALDAS, Manfredo. “Contribuição à história do curta metragem brasileiro”, sem indicação editora, RJ, 2004.

. CESAR, Ana Cristina Cesar. “Literatura não é documento”, MEC/FUNARTE, RJ, 1980.

. Filme Cultura n° 41/42: “Curta-Metragem”

. MOURA, Roberto, “A história sagrada do cinema brasileiro e o cinema invisível”, in: Cinemais n° 17, RJ, maio/junho 1999.

. “A construção de uma história do cinema brasileiro: política estatal e cinema alternativo nos anos Embrafilme”, Revista Contracampo, 1° semestre 2003, n° 8

. VICENTE, Tânia Aparecida de Souza. “A representação do Rio de Janeiro pelo cinema carioca dos anos 70”, cópia tese Mestrado em Comunicação, Imagem e Informação UFF, Niterói, 2001.