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  Título
Sobre a ausência na narrativa de Na Cidade de Sylvia e The Brown Bunny
Autor
Camila Vieira da Silva
Resumo Expandido
No texto O cinema: língua ou linguagem, o semiólogo Christian Metz afirma que o cinema se torna linguagem, porque é capaz de contar “histórias tão bonitas”. Se o cinema é compreendido como este dispositivo que necessariamente conta histórias, suas imagens devem obedecer certas regras de ordem lingüística, sujeitas não exatamente a uma noção de narrativa, mas sobretudo de narratividade – em que as imagens são enunciados dispostos em uma seqüência que implica uma sintaxe.



No entanto, não existe nenhum motivo natural para tratar o cinema como simples discurso, restringindo sua análise por meio de aplicações lingüísticas normativas. Em vez de cair na oposição narrativo/não-narrativo – falso problema posto por semiólogos ou teóricos do cinema –, interessa compreender como toda imagem cinematográfica é feita de processos narrativos, que não são necessariamente da ordem da contação de histórias. Trata-se de pensar a narrativa em seu sentido mais amplo, de como cada imagem se organiza, como ela se estrutura, quais os elementos que ela compõe. A narrativa pode ser pensada a partir da forma como as imagens se constituem e que tipo de relações ela convoca. A imagem por si só produz acontecimentos, nuances, atmosferas.



Os filmes Na Cidade de Sylvia (2007), de José Luis Guerín, e The Brown Bunny, de Vincent Gallo, apostam neste tipo de narrativa fílmica, que se investe bem mais da forma como cada plano é composto e como tal estrutura convoca determinadas nuances. Em ambos os filmes, coloca-se em jogo a relação de um personagem com uma atmosfera de ausência. Mais que a busca por uma mulher, o que se torna forte é a possibilidade de encontros que suscitam o embate com aquilo que já desapareceu, por meio daquilo que é visto. Os dois filmes propõem narrativas que são experiências puras do olhar e como é possível lidar com a ausência diante daquilo que é observado.



Em Na Cidade de Sylvia, um homem sem nome caminha pelas ruas de Estraburgo em busca de um rosto, entre tantos rostos femininos que cruzam seu olhar. Antes de tudo, ele olha e percebe os mínimos detalhes. É como se o rosto da mulher que este homem procura estivesse em todos os lugares e ao mesmo tempo em lugar nenhum, em todos os belos rostos de mulheres que ele encontra. Mais do que uma mise-en-scène, o cineasta José Luis Guerín orquestra uma mise-en-situation, um colocar-se em situação, uma espera para ver qualquer mudança no entorno que seja expressiva. Trata-se de um investimento constante do olhar que busca sempre localizar nos espaços algo que poderia passar batido. É um olhar que repara cada movimento a sua volta, que extrai algo único até mesmo dos detalhes cotidianos. É um olhar que lida primordialmente com a ausência.



Em The Brown Bunny, um homem chamado Bud viaja em uma van pelas ruas dos Estados Unidos e, ao longo do caminho, se aproxima de algumas mulheres. Após algumas leves carícias em espaços públicos, ele as abandona inexplicavelmente. Todas elas têm nomes de flores: Lilly, Violet, Rose... O motivo do abandono surge aos poucos: Bud mantém a lembrança de Daisy, um amor tragicamente perdido. Se a mulher está ausente, há algo na paisagem que também falta. Todo o filme se constrói neste jogo de presença/ausência: os vestígios de Daisy se materializam em alguns traços daquelas mulheres, mas ao mesmo tempo não está em nenhuma delas. Parece que há sempre algo ausente nas paisagens ou nas mulheres que afetam o olhar de Bud.



O que fica evidente na narrativa dos dois filmes é o investimento em uma experiência de duração, em que se atribui sentimentalidade a detalhes filmados – seja personagens ou paisagens – que talvez pudessem passar despercebidos, caso não colocassem em evidência a ausência, aquilo que está fora de campo, mas que interfere fundamentalmente na composição de cada plano.
Bibliografia

BURDEAU, Emmanuel. “Modernes solitudes”. In: Cahiers du Cinéma, n. 589, abril de 2004. Paris: 2004, pp. 12-14.

JOYARD, Olivier. “C’est quoi ce plan? (La suite)”. In: Cahiers du Cinéma, n. 580, junho de 2003. Paris: 2003, pp.26-27.

PARENTE, André. Narrativa e modernidade: os cinemas não-narrativos do pós-guerra. Campinas: Papirus, 2000.

PEIXOTO, Nelson Brissac. “Ver o invisível: a ética das imagens”. In: NOVAES, Adauto (org.) Ética. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.