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  Título
A questão moral e a experiência em dois filmes contemporâneos
Autor
Angeluccia Bernardes Habert
Resumo Expandido
Investiga-se, a partir de A Serious Man (Um homem sério), 2010, de Joel e Ethan Coen e Einaym Pkuhot (Eyes Wide Open ), 2009, de Haim Tabakman, como a presença de um olhar de estranhamento desloca certezas e aflora desejos, duplamente, na ação diegética e na recepção. Ao reconhecer nesses filmes uma implicação paradoxal, que precipita uma outra forma de leitura que não a usual, transparente, muito de acordo com a técnica exegética “não leia sempre igual”, praticada pelos estudiosos do Talmud, o artigo discutirá santidade, interdição e liberdade. O uso da técnica que soletra ou vocaliza de forma diferente as palavras do texto não desconhece o sentido existente subjacente, mas proporciona novas e múltiplas interpretações.

O filme dos irmãos Coen inicia-se com uma frase do famoso rabino Rashi: “Receba com simplicidade tudo o que lhe acontece”. Segue-se uma cena fantasmástica, atemporal e decorrida em uma aldeia européia que pode ser lida com diferentes vocalizações e inquieta o espectador convencional, como uma peça que não se encaixa. Em seguida, ouve-se música moderna, enquanto um grande close mostra um auricular e um ouvido e situa a ação em uma escola hebraica, no centro dos Estados Unido, nos anos cinqüenta. Uma comédia cáustica, uma sátira cruel, lerão críticos e espectadores que acompanham o personagem, Larry, levado por um turbilhão de acontecimentos que não controla, aturdido e atarantado. Presente em sua perplexidade está o desejo de reconhecer a verdade última das coisas. Presente está a sua passividade estóica, que recebe os males sem revolta, até ao final, quando um tornado virá a seu encontro e ele nada perceberá. Um Job contemporâneo, pergunto?

A pedagogia moral das pequenas historias da tradição judaica transformou- se em instrumento de crítica e de acomodação à realidade banal e adversa, forte expressão de humor e ironia no mundo contemporâneo. Ilustração permanente da angústia do absurdo da condição humana, nunca deixou, ainda que distante do universo das aldeias e das comunidades religiosas, de ser expressão da dúvida e da pequenez humana frente ao grande.

O filme de Haim Tabkman se inscreve em outro registro estilístico, uma obra com olhar quase documental, com uma câmera de observação que espera e colhe com precisão os gestos e os detalhes do que encena. A poesia e o ritmo contido envolvem o registro deste cotidiano em uma beleza que extrapola o circunstancial.

Localizado em um bairro de judeus ortodoxos em Israel, o filme descreve um entorno de pessoas que experienciam, dia a dia, os preceitos religiosos e o estudo dos Livros Sagrados . Na cena inicial, a câmera espera para registrar, com paciência, uma ação corriqueira, que parece se prolongar no tempo, e prepara a expectativa de algo que acontecerá, sempre aos poucos, sem nenhuma preocupação com a velocidade. Preocupa-se em descrever o homem piedoso, um açougueiro religioso (kosher), que procura "amar as dificuldades" e “ser servo de Deus”. A santidade, do ponto de vista religioso, constitui-se nas boas obras, nos preceitos a serem obedecidos e no estudo dos Livros Sagrados. Mas a felicidade e o prazer que são prometidos ao homem bom parecem surgir na visita daquele jovem viajante e no desejo que ele lhe desperta.

O amor entre dois homens religiosos leva à discussão da interdição e do pecado. Em meio à paixão que aumenta, o homem mais velho negligencia o trabalho, a família, a comunidade religiosa e seus preceitos. Uma cadeia de transgressões e de omissões o leva enfim ao pecado maior. Novamente, defronta-se o espectador com uma historia que inquieta e não fecha. Se este é um filme que exorta a relação de amor entre dois homens como a felicidade prometida, a construção do filme - no ambiente de relações tão orgânicas e entrelaçadas - apresenta também uma discussão de responsabilidades rompidas e de omissões, que de forma alguma ultrapassará a beleza e o reconhecimento da libertação feita sobre o cotidiano insuficiente.
Bibliografia

REFERÊNCIAS

BUBER, Martin. Histórias do Rabi. São Paulo: Perspectiva, 1967.

CAILLOIS, Roger. O Homem e o Sagrado. Lisboa: Edições 70, 1988.

CERTEAU, MICHEL. Le Lieu de l’autre – Histoire religieuse et mystique. Paris: Gallimard/ Seuil, 2005

PUCHEU, Alberto. Nove abraços no inapreensível – filosofia e arte em Giorgio Agamben. São Paulo: Cultura Dinâmica, 2008.

SEDLMAYER, Sabrina, GUIMARÃES, César e OTTE, Georg (orgs.) O Comum e a experiência da linguagem. Belo Horizonte: Ed.UFMG, 2007.