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  Título
Para cuidar de si: o documentário caseiro e familiar de Naomi Kawase
Autor
Juliana Cardoso Franco
Resumo Expandido
Dentre as várias práticas cinematográficas contemporâneas, a documental tem se destacado pela repercussão crítica e pela extensiva experimentação de formas, modelos, limites, chegando mesmo ao questionamento de sua capacidade de narrar o mundo e por conseqüência produzir a verdade sobre as relações sócio-históricas nele presentes. Não se trataria mais de uma passagem aos modos de narrar ficcional ou não ficcional e vice-versa, como se existisse uma tênue fronteira entre estes dois universos que separaria diferentes concepções de abordagem do real, mas de uma superação desses termos porquanto instrumentais e instrumentalizadores de um campo de subjetivação poderoso em meio ao contemporâneo.

Cada vez mais próximo da suposta neutralidade da dramaturgia do telejornalismo e derivados, por conta de sua eventualidade imediata, o documentário recente parece perceber a necessidade de reformular os termos da questão e propor um grau maior de dificuldade na apreensão dos discursos audiovisuais e sobretudo na sua irredutibilidade como experiência subjetiva e subjetivadora única. Este limite transgredido se manifestaria no que denominados de “estéticas de si” contemporâneas, como desenvolveremos a partir dos documentários caseiros e familiares da cineasta japonesa Naomi Kawase, a partir de um cinema que insiste em apresentar seus momentos de crise, trauma ou finitude e sobretudo seus afetos. A dor, o sofrimento e o afeto como experiências humanas em seus termos imediatos e “interiores” estariam a desafiar o espectador em suas limitações cognitivas e em seus pré-conceitos.

O projeto de uma “ética da existência” foi perseguido na última etapa de pensamento de Michel Foucault. Inspirando-se nas práticas de vida e pensamento de epicuristas e estóicos, retomou-se a questão do que define o sujeito em termos contemporâneos e de como este pode romper as instâncias e os limites que o aprisionam em epistemes repressoras e deformadoras de seu vir-a-ser. Como novo padrão, o elogio do comportamento desviante e do cuidar de si desaguam em um processo de subjetivação que não se prende mais a instâncias externas e sim a uma prática de si. O sujeito deve desentranhar-se dos conceitos, conteúdos, rótulos, que tentam defini-lo a priori e lançar-se no mar revolto da crise e da crítica de si mesmo como forma de conhecer seus limites e transgredi-los, redefinindo-se a cada momento. Como forma de registro contingente desse processo, o cinema de Naomi Kawase parece uma forma privilegiada da apreensão sugerida, mas nunca de fato formulada, estética ou estilística da existência.

A proposição da subjetividade do realizador como uma experiência única e intransferível por processos de identificação, projeção, sublimação ou recalque, surge assim precária, incompleta, irredutível aos pressupostos sociais e culturais imediatos, reformulando-se a partir da crítica desses pressupostos. A recuperação e exposição de um momento traumático não tem mais valor moral, como exemplo de superação ou algo semelhante, mas sim de uma espécie de “existência ética” como uma opção de desocultamento, resistência e reformulação de um posicionamento de vida, marcado não só pela individualidade do sujeito mas por sua contingência fenomenológica, antropológica e psicológica. Expor-se na precariedade da vida assume uma função crítica das identidades pré-fabricadas pela cultura em quaisquer de suas manifestações midiáticas. Escavar artisticamente a própria precariedade é um cuidar de si sem véus, apostando todas as fichas em um revelar-se que assume assim características transgressoras e libertárias, prioritariamente para o próprio sujeito-realizador. Cumpriria ao espectador buscar a sua própria subjetividade em prática de si, como preconizava Michel Foucault ao sugerir uma “estética da existência”. Também temos o objetivo de compreender como esta visão pode dialogar com uma reflexão contemporânea sobre as imagens, com destaque para a “Partilha do sensível” proposta por Jacques Rancière.
Bibliografia

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