/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
Jia Zhang Ke e a iminência da catástrofe
Autor
Lúcia Ramos Monteiro
Resumo Expandido
Partindo da noção de catástrofe como evento gerador de uma cisão/ruptura sem retorno na história, tal qual foi trabalhada por Hannah Arendt em Crise da Cultura, articulo as noções de memória e premonição para estudar filmes rodados na iminência da catástrofe, ou seja, nos instantes que precedem transformações drásticas. A filmografia de Jia Zhang Ke me interessa em primeiro lugar por retratar um mundo em vias de desaparecer: a cidade de Fengie filmada em seus últimos dias antes de ser inundada por uma barragem da hidrelétrica das Três Gargantas; a desmontagem de uma usina da China comunista que dará lugar a um grande empreendimento imobiliário; a diáspora da trupe de Plataforma. Assim, seus filmes parecem terem sido gravados com a mesma urgência de cineastas que se interessaram por grandes eventos históricos (urgência que lembra por exemplo Qué Hacer?, de Saul Landau, também um misto de ficção e documentário rodado no Chile em 1970, às vésperas da eleição de Salvador Allende, ou o 25 de José Celso na independência de Moçambique). É como se coubesse ao cinema a missão de registrar esses instantes para produzir memória, fornecer provas pela imagem e/ou resistir contra o impacto do tempo. Pretendo ainda analisar a maneira como Jia Zhang Ke filma, valendo-se do hibridismo de gêneros (documentário x ficção), de suportes (35 mm x digital), e de princípios de criação da imagem (filmagem x animação). Isso produz uma certa confusão para o espectador, que tem dificuldade de distinguir realidade de ficção, pelo menos à primeira vista.

Por fim, pretendo discutir o lugar do pesquisador/espectador, que observa esses filmes num momento posterior, no qual provavelmente já sabe o que aconteceu: a cidade já desapareceu, submersa; a usina já foi substituída pelo edifício moderno. Isso dá um sentido novo às imagens. Estabelecem-se dois pontos de vista distintos: o do cineasta, que contém uma certa premonição (visão adiante, previsão do futuro), e o do espectador, atravessado pela memória (visão retrospectiva, rememoração do passado).
Bibliografia

ARENDT, Hannah. Crise de la culture. Paris, Gallimard, 1972.

BERMAN, Marshal. Tudo o que é sólido desmancha no ar. São Paulo, Cia. das Letras.

COMOLLI, Jean-Louis, et RANCIERE, Jacques. Arrêt sur histoire. Paris, Editions du Centre Georges Pompidou, 1997.

RICOEUR, Paul. L'idéologie et l'utopie. Paris, Éditions du Seuil, 1997

VEYNE, Paul. Comment on écrit l’histoire. Paris, Seuil, 1975.