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  Título
O corpo em deslocamento nos filmes de bolso
Autor
Kênia Cardoso Vilaça de Freitas
Resumo Expandido
Propomos uma imagem: o local é um restaurante cheio. O plano é feito com a câmera na mão. No quadro vemos uma estrutura de madeira que funciona como divisória entre as mesas do restaurante, nessa estrutura um espelho e seu reflexo e, por trás da estrutura, outras mesas. Da composição do reflexo do espelho e o que está além da divisória temos a combinação de dois corpos, um homem e uma mulher que estão em mesas diferentes, como se fossem um só. Esse corpo fragmentado e com movimentos desencontrados – as mãos manuseiam talheres e cortam a comida, mas não chegam à boca que vemos – está no centro da imagem. No canto direito, vemos por apenas alguns instantes pelo reflexo do espelho a câmera que produz a cena.



O parágrafo acima é a descrição do filme Me//at, de Raquel Kogan, que pode ser visto no endereço: www.festivalpocketfilms.fr/films/article/me-at. O filme faz parte do festival Pocket Films - um festival francês internacional de filmes feitos com telefone celular, realizado anualmente desde 2005. Parte dos filmes concorrentes pode ser assistida no endereço eletrônico: www.festivalpocketfilms.fr. Podemos observar nos filmes participantes deste festival uma volta recorrente à exploração do subjetivo Essa imagem do corpo múltiplo e fragmentado na mesa do restaurante parece-nos emblemática para pensar a relação dos filmes feitos com celular com o processo de subjetivação, que desenvolveremos a seguir.



Essa fragmentação do “eu” se mostra de diversas formas: desde manipulações na imagem, passando pelo circuito entre dispositivos e indo até a diluição do individual no político. A importância da vivência é nítida na ênfase dada ao deslocamento nesses filmes, desde um banal passeio de bicicleta, até o deslocamento transnacional do exílio. É como se na instabilidade identitária contemporânea só fosse possível buscar representações em transições, passagens: entre-imagens, entre mídias, entre espaços diversos, entre países, entre ficção e realidade. E, nesses espaços entre, o que nos resta é a corporificação das experiências.



Por isso, acreditamos que as representações do corpo em deslocamento nos filmes de bolso são constituintes de uma nova prática política. Um fazer político que passa pela criação, pelo microcosmo, pelo cotidiano. Esses filmes, mais do que uma mostração do íntimo exibicionista ou narcisista, seriam pequenos acontecimentos, que escapam ao controle e engendram novos tempos-espaços (DELEUZE, 1992, p.218). São causas pequenas – como defender as bicicletas contra os carros – e que já trazem em si o macro – nesse caso, a questão da poluição dos automóveis, do congestionamento das vias urbanas, do esgotamento de recursos naturais.



Esse micro cinema político passaria pelo que Hardt e Negri chamam de lutas biopolíticas: ao mesmo tempo econômicas, políticas e culturais. Ou seja, formas de resistência que passam diretamente pela vida, criando novos espaços públicos e novas formas de comunidade (2006, p.75). Os autores falam em duas formas de resistir ao controle: a construção de um novo corpo (de uma nova vida) e a deserseção, o êxodo, a desterritorialização desse novo corpo. São justamente estes os caminhos que tomam os filmes que propomos pensar. Para os autores, essa transformação corpórea passa por admitir que não existe uma natureza humana separável da natureza como um todo. Nesse sentido, a câmera celular seria uma prótese criativa que constituíria uma nova convergência homem/máquina engendrando novos processos de subjetivação e de resistência.



Enfim, estamos diante de filmes de micro acontecimentos cotidianos que colocam outros espaços-tempos possíveis – o espaço íntimo, o tempo qualquer... Restaurando, assim, o que seria para Deleuze nossa maior deficiência política: a crença no mundo (1992, p. 218). Construindo corpos híbridos e traçando novas cartografias de deslocamento, os filmes filmes feitos com celular não só crêem no mundo, mas também nas possibilidades e na necessidade de agir nele.

Bibliografia

ARFUCH, Leonor. El espacio biográfico. Dilemas de la subjetividad contemporánea. Argentina: Fondo de Cultura Económica, 2002.

BELLOUR, Raymond. Entre imagens: foto, cinema, vídeo. Campinas, Papirus, 1997.

DELEUZE, Gilles. A imagem-tempo. São Paulo: Brasiliense, 1990.

_______________. Conversações. São Paulo: Editora 34, 1992.

DUBOIS, Philippe. O ato fotográfico e outros ensaios. Campinas, Papirus, 1993.

FOUCAULT, Michel. “Subjectivité et verité”. In: Dits et écrits IV. Paris: Gallimard, 1994.

HARDT, Michael e NEGRI, Antonio. Império. Rio de Janeiro: Record, 2006.

LEJEUNE, Philippe. Le pacte autobiographique (bis). In: Poétique 56. Paris: Seuil, 1983.

PARENTE, André. “Enredando o pensamento: redes de transformação e subjetividade”. In: (org.). Tramas da rede: novas dimensões filosóficas, estéticas e políticas da comunicação. Porto Alegre: Sulina, 2004.

SCHEFER, Raquel. El Autoretrato en el documental: figuras, máquinas, imágenes. Buenos Aires: Catálogos, 2008.