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  Título
Entre localidade e subjetividade: urdiduras fílmicas
Autor
Cláudia Cardoso Mesquita
Resumo Expandido
É consenso nas interpretações sobre o cinema documental brasileiro recente a presença expressiva de discursos particularizantes. Apresentando poucos personagens e recusando a sinédoque, os enunciados fílmicos evitam remeter os dados pessoais a um quadro geral. Mais, ainda: como parte de um movimento abrangente que parece caracterizar o atual regime de visibilidade (incluídos aqui shows de realidade na TV, blogs e sites de relacionamento na internet), o documentário torna-se "palco" para atuação e auto-exposição de sujeitos, o que amortece a dimensão representacional em privilégio da “performativa” (BRASIL, 2008: 94) — o filme engendrando e registrando atos, acontecimentos, performances contingentes, antes mesmo de dar lugar a uma representação (crítica ou não) de experiências prévias.

O interesse desse movimento de particularização (e de intensificação do “performativo”) não impede que o vejamos como sintoma da dificuldade de se representar a experiência social hoje — especialmente se pensada no coletivo. Problema análogo àquele que J. Clifford (1998) notava na etnografia dos anos 1970 e 1980 (com a emergência de novos paradigmas narrativos, que lançavam mão, por exemplo, da compilação de declarações de nativos, almejando uma espécie de autoria plural); ou que se observou no campo da história, com a crise da “história-síntese”, marcada pelo crescimento do “número de investigações históricas caracterizadas pela análise extremamente próxima de fenômenos circunscritos”, como apontou C. Ginzburg (1989: 172).

Se não deve ser ingenuamente tomada como valor absoluto, a particularização tampouco é um problema em si mesma (“o macro pode estar contido no micro”, e por intermédio dele “ser atingido”, como quis E. Coutinho). Sendo assim, talvez seja mais preciso notar que muitos filmes documentais recentes abandonam as pretensões cientificistas e informativas (“sociológicas”, no dizer de J-C. Bernardet). Neste movimento, alguns se aproximam de construções antes mais próprias à ficção, almejando um alcance menos referido ao diagnóstico social, remetendo, antes, a experiências de teor universal - a travessia da juventude, a memória, o desejo, o corpo e suas marcas, a tensão entre permanência e movimento, conservação e mudança.

Para dar sequência a esta reflexão, privilegiarei a análise de dois filmes brasileiros recentes: “A falta que me faz” (Marília Rocha, 2009) e “Morro do Céu” (Gustavo Spolidoro, 2009). Ambos se voltam para as vivências de alguns jovens que moram em pequenas localidades do interior brasileiro: Curralinho (MG) e Cotiporã (RS), respectivamente. Possibilitam, pelo recorte geográfico, o exame dos modos como se urdem (ou se contornam), através de opções estéticas e de abordagem, as tensões e imbricações entre localidade e subjetividade. Por abordarem e exporem personagens adolescentes, que atravessam momentos caracterizados por transformação e impermanência, estes filmes favorecem a análise das composições e atritos entre moldura espaço-social e devir existencial e corporal de seus personagens.

Se evitam tematizar diretamente o “social” e o “local” (refratados, de algum modo, pelos movimentos e atuações dos protagonistas), e incorrem, os dois filmes, em um acento sobre o “performativo” (compondo as cenas a partir dos gestos dos personagens em tarefas, diversões e derivas cotidianas, menores, pouco afeitas à tipificação), ambos se esquivam de uma abordagem de superfície, prolongando-se na apresentação de seus personagens e acompanhando mudanças e reflexões por um intervalo largo de tempo. O acento sobre esta fase da vida é decisivo, pois permite que os enunciados fílmicos “resistam na incerteza” - algo se esvai no momento mesmo em que é registrado, e a indeterminação (de um porvir) parece constituir os personagens mais do que qualquer identidade presente. Estes e outros aspectos, como a maneira como se compõe e se atravessa a paisagem (em diálogo com as interioridades dos protagonistas), serão abordados.
Bibliografia

BERNARDET, Jean-Claude. Cineastas e Imagens do Povo. São Paulo: Cia. Das Letras, 2003.

BRASIL, André. “Carapiru-Andrea, Spinoza. A variação dos afetos em Serras da desordem”. Devires – Cinema e Humanidades. Fafich/UFMG, v.5, n.2, 2008.

CLIFFORD, James. A experiência etnográfica: antropologia e literatura no século XX. RJ: Editora UFRJ, 1998.

COUTINHO, Eduardo. “Fé na Lucidez”. Sinopse, São Paulo, 1999, nº 3, ano I, Dossiê Documentário, p.20-29.

GINZBURG, Carlo. A micro-história e outros ensaios. Rio de Janeiro: Bertrand, 1989.

HOLANDA, Karla. “Documentário brasileiro contemporâneo e a micro-história”. Devires - Cinema e Humanidade, Fafich/UFMG, v. 2, n.1, 2004.

LINS, C. e MESQUITA, C. Filmar o real – sobre o documentário brasileiro contemporâneo. RJ: Jorge Zahar Editor, 2008.

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XAVIER, Ismail. “O Cinema Brasileiro dos Anos 90” (entrevista). Praga- estudos marxistas, SP, Hucitec, 2000.