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  Título
Ginga e jogo - Movimentos da violência em Madame Satã e Besouro
Autor
Ramayana Lira de Sousa
Resumo Expandido
Do ponto de vista das políticas da representação, a imagem do negro no cinema brasileiro é constantemente associada a estereótipos e modulações formais que lhe impõem o peso metonímico de uma identidade calcada na violência e na pobreza. Não se pode negar a importância dessas leituras que visam apontar tais distorções e ‘equalizar’ os regimes de visibilidade dentro das paisagens audiovisuais, além de problematizar as ideias de ‘inclusão’ e ‘exclusão’. Entretanto, busco, com esta proposta, apresentar vias de análise do corpo negro no cinema brasileiro contemporâneo a partir de pressupostos outros. São quatro conceitos principais que surgem como fundamento do estudo: “imagens da violência”, “imagens violentas”, “violência de classe” e “classe de violência”. Por um lado, a violência no/do cinema pode ser vista como irradiação, contaminação (“imagens violentas”), em constante tensão com os clichês da violência (“imagens da violência”). Por outro lado, podemos opor à violência que exclui, que marca um dentro e fora, delimitando pertencimentos (“violência de classe”), uma “classe de violência”, ou seja, não a violência de uma classe social (uma abordagem que poderia levar a reducionismos identitários), mas um tipo de violência que, experienciado por pessoas de diversos contextos sociais, apresenta-se como uma recusa à violência excludente. Tomando como base essas formulações, meu objetivo é analisar em dois filmes brasileiros contemporâneos, Madame Satã (Karim Aïnouz, 2002) e Besouro (João Daniel Tikhamiroff, 2009), a construção do corpo do capoeirista, sem descuidar, no entanto do diálogo diacrônico com obras como O Amuleto de Ogum, (Nelson Pereira dos Santos, 1974) e Barravento (Glauber Rocha, 1962). Aqui, o jogo da capoeira reveste-se de possibilidades políticas que promovem alinhamentos entre as quatro categorias onde a obra de Aïnouz parece privilegiar as imagens violentas e a classe de violência enquanto que o filme de Tikhamiroff acentua as duas outras categorias. A análise se aprofunda quando a própria condição de jogo da capoeira é reapropriada como instância profanadora, ou seja, como gesto que pretende restituir ao uso e à propriedade dos seres humanos o que havia sido retirado para a esfera do religioso ou do sagrado. A capoeira, além de ser compreendida como expressão de um trânsito cultural entre o Brasil e a África e de processos de hibridismos, reapropriações e redesenhos identitários, pode ser analisada como gesto que carrega o corpo negro de potências afetivas.

Bibliografia

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