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  Título
Paixões fatais: tauromaquia, cinema e corpo.
Autor
Diego Paleólogo
Resumo Expandido
O cinema tem como uma de suas funções deslocar o espectador, fazer com que o homem entre em contato com lugares abissais da sua experiência, tangenciando a si mesmo e ao mundo. Essa colocação, adaptada do livro-ensaio Espelho da Tauromaquia, de Michel Leiris direcionada ao espetáculo das touradas, adquire outro status quando pensada concomitantemente com dois filmes do diretor e roteirista espanhol Pedro Almodóvar. A tauromaquia, luta entre e com touros, é uma clássica tradição espanhola, re-atualizada e reorganizada por Almodóvar em dois de seus filmes, nos quais ele realoca a tauromaquia dentro de um imaginário popular globalizado e contemporâneo. Antes do advento do cinema, no final do século XIX, as Touradas eram o principal entretenimento das massas espanholas. Quando o espectador se desloca das arenas para a sala de projeção, o acontecimento também sofre um golpe quase fatal: as touradas passam a ser objeto da cinematografia, migram da esfera do real para a do ficcional. O cinema desloca o público e o acontecimento, fundando novo lugar de tangências e produções de subjetividades. De acordo com Leiris, a tauromaquia está diretamente relacionada com a atividade erótica e passional. Almodóvar é conhecido por investigar temas que abordam uma espécie de “outro lado” do Homem – produzindo visibilidade dos desvios, das perversões, dos desejos secretos, ou seja, ele torna visível, através do seu gesto de fazer cinema, o que é velado no cotidiano. Dessa maneira, Almodóvar produz lugares – filmes, acontecimentos – nos quais o homem, mais uma vez, tangencia ao mundo e a si mesmo. Dentro da ampla e múltipla obra do diretor, recortamos dois filmes específicos para abordar as questões da tauromaquia, corpo e cinema. Matador, de 1986, e Hable con Ella, de 2002. Os filmes abordam, através de narrativas distintas, as relações eróticas e sacrificias engendradas nas relações entre Homem e Touro, touro e matador, vítima e assassino, experiência de morte e pulsão erótica. Em cada filme novas conexões são estabelecidas e investidas de novos sentidos, apresentando personagens que administram essas relações de maneiras muito específicas e especiais, produzindo tensões e tramas que, invariavelmente, atingem o ápice na morte. A experiência de morte, dentro da lógica de Leiris, é sublime e associada ao orgasmo; o passe tauromáquico, o gesto mais arriscado do toureiro, é equivalente ao coito – ponto de convergência de vida e morte, homem e animal, erotismo e sacrifício; o lugar de fusão dos corpos – lugar de convergência de opostos que cabe também ao cinema. Nesses dois filmes observamos diversos pontos de convergências, passagens nas quais o cinema tangencia a si mesmo, filmes dentro do filme que deslocam as personagens para o ápice da experiência erótica, desorganizando as fronteiras entre vida e morte, possível e impossível etc. Esse trabalho tem como objetivo investigar essas produções e suas linguagens, tendo como baliza os escritos de Michel Leiris e Georges Bataille – que aborda, em diversos trabalhos, a experiência erótica e sacrificial. Pensar os filmes de Almodóvar como espécie de lugar contemporâneo de tangências e produções de novas subjetividades, visibilidade do invisível e palavra do indizível; estabelecer os vínculos entre literatura e cinema, letra e imagem, abordando a produção cinematográfica como foco de convergência entre as duas formas de produção de subjetividade.
Bibliografia

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GUMBRECHT, Hans Ulrich. Production of presence: what meaning cannot convey. California: Stanford University Press, 2004.

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