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  Título
Particularidades Narrativas da Microssérie Capitu
Autor
Renato Luiz Pucci Junior
Resumo Expandido
O objetivo desta comunicação é apresentar alguns resultados de uma pesquisa em torno da microssérie Capitu (Globo, 2008), direção de Luiz Fernando Carvalho, em função de seu caráter particular dentro da produção televisiva contemporânea, em termos de poética narrativa. Para além do arcaico problema das adaptações da literatura para o audiovisual, que geralmente envolve qualificações como infidelidade, traição, deformação, violação, vulgarização e profanação, todas de cunho moralista e evidente carga de negatividade ultrajada (STAM, 2000), pretende-se examinar as soluções narrativas e técnicas encontradas para transpor Dom Casmurro, de Machado de Assis, para um meio ainda habitualmente visto como incapaz de transmitir ideias profundas e de apresentar produções de alta qualidade estética. Capitu constitui com Hoje é Dia de Maria (2005) e A Pedra do Reino (2006), microsséries também dirigidas por Luiz Fernando Carvalho, um conjunto que envolve as poéticas pós-modernista e modernista (esta última especialmente rara no âmbito da ficção seriada) e que destoa da produção tradicional da televisão brasileira. Aparentemente, o diretor continua em seu projeto de fazer cinema na TV, objetivo manifestado em depoimento de meados dos anos noventa, cuja concretização envolveria a transposição para a ficção televisiva de um suposto padrão de uso da linguagem cinematográfica, a ultrapassar o praticado segundo o padrão Globo de produção. Nesse contexto, a microssérie Capitu se apresenta como um objeto enigmático como a personagem feminina mais célebre de Machado de Assis. Rupturas ostensivas do naturalismo clássico, hegemônico na televisão (não apenas nacional), de modo que espaço e tempo pareçam não corresponder ao que o senso comum atribui ao mundo real, são apenas os elementos mais evidentes da composição repleta de estruturas de agressão, termo de Noël Burch para aquilo que na arte provoca quebras da expectativa do público. Outro elemento a constituir esse compósito de difícil definição é a hibridização com elementos da ópera e do teatro que, sem esquecer do cinema, constituem um produto audiovisual de caráter pouco ou nada usual. Propõe-se nesta comunicação uma análise comparativa da microssérie com as soluções adotadas no longa-metragem Capitu (Paulo Cesar Saraceni, 1968), ou seja, com um produto do meio audiovisual tido como de referência, dirigido por um consagrado diretor cinemanovista, cujo roteiro é de autoria do próprio diretor e de Paulo Emílio Salles Gomes, com diálogos de Lygia Fagundes Telles, em outras palavras, realizado por nomes de prestígio da intelectualidade brasileira. Por outro lado, indagar-se-á acerca da inclusão da microssérie Capitu em alguma linha de criação audiovisual, de modo a esclarecer a direção das soluções narrativas adotadas. Será considerada criticamente a proposta de Kristin Thompson em vista da caracterização de uma art-television que, à maneira do art-cinema, constituiria uma variante da produção modernista contemporânea. Nesse sentido, poderá ser apontada uma possível aproximação entre Capitu e produtos televisivos realizados na intersecção entre cinema e TV, por cineastas como Peter Greenaway e David Lynch. Pretende-se com isso examinar o que ocorre atualmente nos territórios comuns entre cinema e televisão, com a transposição sucessiva de incontáveis soluções técnicas e narrativas de um meio para o outro, de modo que as fronteiras entre os meios se encontrem cada vez mais apagadas. Capitu seria talvez o produto recente mais ousado nessa direção.
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