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  Título
Heterogêneos em Found Footage: montagem, estética e política
Autor
Luiz Garcia Vieira Junior
Resumo Expandido
A realização de filmes por montagem a partir da reutilização de material de outros filmes ou de trechos de filmes tornou-se uma prática cinematográfica cada vez mais recorrente, assumindo caracteres distintos e múltiplas denominações. Jay Leyda inaugura uma sistematização para os estudos destes filmes propondo o termo de filmes de compilação (Leyda, 1964), a qual é incorporada por Willian C. Wees em sua classificação dos filmes de imagens recicladas, onde utiliza o termo found footage, e a subdivide nas categorias de compilação, colagem e de apropriação (Wees, 1993). Nicole Brenez, por sua vez, distingue o reemprego da montagem entre obras como sendo de caráter intertextual, “in re” (em espírito), onde a obra inicial é imitada na totalidade ou em parte, ou a reciclagem, “in se”, reemprego da coisa em si (Brenez, 2000). É neste último sentido estrito, em acordo com a classificação de Brenez, que Antonio Weinrichter localiza no âmbito do cinema experimental os filmes found footage, reconhecendo-os como formações discursivas de apropriação vanguardista (Weinrichter, 2009).

O cineasta found footage acessa o acervo audiovisual continuamente alimentado pelo cinema, filmes caseiros, TV, web etc., nele recolhe a matéria prima para suas realizações. É a partir desses rasgos e pelos variados procedimentos desta prática, associada ao détounement das collages e assamblages cubistas e surrealistas e também vinculado à proposta situacionista de Guy Debord (Brenez, 2000), que novos corpos fílmicos são constituídos, expondo tensões entre discursos heterogêneos e promovendo novas visibilidades para àquelas imagens originais, ao mesmo tempo em que explicita o caráter essencial da montagem nas construções desses filmes. A proposta deste trabalho é a de refletir sobre as correlações entre a montagem na prática found footage e as reflexões de ordem estética e política daí decorrentes.

As imagens recicladas chamam atenção para elas mesmas como imagens, pois ao serem confrontas em seu próprio meio através da montagem, abrem-se ao exame crítico dos métodos e motivos de sua produção pela mídia (Wees, 1993) e também instauram o conflito estético e político, seja a partir da postura vanguardista pelo gesto de apropriação ou o desafio à distinção entre arte de elite e de massa ao trabalhar com elementos da cultura popular (Weinrichter, 2009). Neste sentido, no desenvolvimento do estudo aqui proposto para essas novas organizações de significados em found footage, recorreremos às reflexões de Georges Didi-Huberman sobre o papel da montagem e questões levantadas por Jacques Rancière em relação às práticas estéticas e política, exemplificando com algumas obras do realizador austríaco Peter Tscherkassky.
Bibliografia

BRENEZ, Nicole. Montage intertextuel et formes contemporaines du remploi dans le cinéma experimental. (in) Cinémas: Journal of Film Studies, vol. 13, n° 1-2, 2002, p. 49-67.



DIDI-HUBERMAN, Georges. Images malgré tout. Les éditions de Minuit, Paris, 2003.



RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível – estética e política. Ed. 34, São Paulo, 2005.



WEES, William C.. Recylced Images: The Art and Politics of Found Footage Films. New York : Anthology Film Archives: 1993.