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  Título
HIPERTROFIA DO GLOBAL NO LOCAL: OS GÊNEROS NO CINEMA DE BORDAS
Autor
Gelson Santana
Resumo Expandido
Os gêneros cinematográficos são modos de agenciamento de histórias. Toda história está modelada nas estratégias de conformação da narrativa. Dessa forma, os gêneros funcionam como uma espécie de marcador narrativo de um relato encenado e as sociabilidades que um imaginário narrativo conforma acabam por se constituírem em determinações tipológicas dos gêneros. São as estratégias de agenciamento entre narrativa e história que dão legitimidade aos gêneros como campo de sentido que tem no processo industrial da repetição sua estabilidade. Assim, os gêneros no cinema, enquanto marcas industriais, dependem, para sua estabilidade, das estratégias de repetição. A repetição responde a um campo de sentido capaz de atualizar história e narrativa. Portanto, os gêneros funcionam como um espaço de convergência narrativa.

Em geral, no cinema brasileiro, os gêneros têm a função ambígua de desenvolver traços primários que apontam para uma construção artesanal e, ao mesmo tempo, negociam com sociabilidades que se aproximam de uma troca entre narrativa e espectador. Esse traço primário funciona como uma espécie de um movimento artesanal implícito que tem por função conjugar espetáculo e sociabilidades. Já no cinema de bordas, o gênero apresenta-se de modo secundário. Neste caso, ele se transforma em reflexo de um espaço de diálogo entre códigos midiáticos socializados e o imaginário cultural que dá forma a estes códigos.

Estes dois regimes no uso dos gêneros estabelecem a distinção entre processo e efeito. Como processo os gêneros conformam as narrativas no cinema ao estabelecer os elementos que as modelam. Como efeito, pertencem a um lugar de sociabilidade capaz de se valer dos protocolos receptivos que o imaginário marca nas narrativas. Neste sentido, os gêneros como traço secundário promovem narrativas marcadas por efeitos socialmente arraigados. Dessa maneira, o efeito é resultado da acoplagem entre a recepção ativa e o imaginário local. Isto quer dizer que a relação entre a recepção ativa e o imaginário local está no efeito que o consumo dos gêneros industriais implanta no imaginário local. Neste sentido, a passagem da produção de processos a efeitos transforma os gêneros em modos de sociabilidade local as narrativas industriais, fazendo emergir delas um olhar artesanal.

Na sua conversão de industrial em artesanal o gênero se fragmenta. Observe-se que no cinema brasileiro canônico ele sempre esteve entre estes dois espaços. No cinema de bordas esta fragmentação apresenta-se como um modo de expressão “natural” na medida em que as formas genéricas encontram-se socializadas. No processo artesanal, mais do que o gênero em si pensado como entretenimento, estão as transformações sociais que a manipulação a partir de sua recepção um imaginário das narrativas apresenta. Por essa razão, no cinema de bordas os gêneros se mostram formas expressivas abertas que hipertrofiam o global quando estabelecem a construção das identidades narrativas locais. O discurso local apresenta-se, então, marcado pelo imaginário industrial global.

Bibliografia

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