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  Título
Além da imagem: o estudo dos fenômenos sociais e culturais no cinema
Autor
PALOMA COELHO
Resumo Expandido
Na atualidade, a imagem assume um papel importante na dinâmica cultural e corresponde a um poderoso veículo de expressão e transmissão de conhecimento, pois a sociedade vivencia uma época marcada pela propagação de imagens e signos, estimulada pela indústria cultural e os meios de comunicação de massa. Nesse contexto, as Ciências Sociais têm abarcado cada vez mais pesquisas voltadas para o estudo da imagem e suas influências na sociedade. Portanto o cinema, sendo imagem e (m) movimento, tornou-se uma das formas culturais mais significativas.

Através das práticas sociais, o ser humano torna-se sujeito que atua na vida cotidiana no campo dos significados – ou da linguagem – e das emoções vivenciadas, elementos presentes na produção cinematográfica por meio da representação. O conceito de representação é importante para se pensar na relação entre cinema e o contexto social, pois as representações são transmitidas através de imagens que traduzem a sociedade não como ela é, mas como deseja ser vista. A obra cinematográfica carrega as aspirações e anseios da época de sua produção e se constitui em discursos e expressões ideológicas por meio dos quais se compreende a maneira como os grupos e organizações sociais percebem sua posição na sociedade.

No campo das Ciências Sociais, a idéia de representação é utilizada para se compreender fenômenos culturais segundo critérios particulares (classes sociais, identidades sexuais, etnias, cidade, família e organziações familiares, entre outros) através do diálogo dos filmes entre si e com sua época. A análise concreta dos fenômenos culturais através da produção fílmica exige uma maior intimidade com a obra, utilizando os elementos que a compõem como um conjunto de relações mútuas que lhe atribuem sentido, e não de forma isolada, fragmentada. Segundo Ismail Xavier, é preciso atentar para a “tensa relação entre narrativa, dimensão plástico-visual-sonora do cinema e tudo que interage no corpo de um filme, que é complicado analisar” (MENDES, 2009 p. 276). Tais elementos, além da sua estrutura e função no interior do filme que, aliados aos discursos, aspectos socioculturais e simbólicos fornecem a compreensão da maneira como determinados fenômenos sociais são representados por meio dos debates entre a estética e a sociologia da cultura.

Nessa perspectiva, outros elementos são relevantes na análise fílmica por influenciarem na construção das imagens e dos discursos que se pretende transmitir. Sorlin (1985), afirma que o filme não é a expressão transparente da realidade, nem o seu contrário. Para o autor, o filme utiliza instrumentos como a construção dos planos, os cortes e a recomposição para atribuir sentido a fragmentos da realidade, o que constitui o conceito de construção fílmica.

Assim, a escolha metodológica das investigações dos fenômenos sociais e culturais através do cinema possui como problema central a escolha das categorias de análise, que devem se mostrar pertinentes com a escolha dos filmes e com o período em questão. Tais categorias devem engendrar um debate que não se reduz ao cinema, mas também a uma leitura aprofundada do contexto social e dos sistemas de representação ou articulações sociais contidos na obra. Além disso, a análise de filmes deve ser realizada através da construção de intertextualidades, pois o diálogo entre os filmes permite a compreensão das categorias e suas transformações no tempo, e consequentemente, seu impacto na sociedade.

Enfim, acredita-se que o estudo do cinema necessita de uma abordagem interdisciplinar, que não só dialogue com as Ciências Sociais, mas com a História da Arte – através da relação do cinema com outras expressões artísticas – com a semiótica e a Psicologia, pois o conceito de representação não se restringe a aspectos conscientes da mentalidade social, mas também corresponde a elementos subjetivos conscientes e inconscientes, além de traços objetivos que escapam à consciência dos grupos sociais.

Bibliografia

ANDREW, James Dudley. As principais teorias do cinema. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1989. 269p.



AUMONT, Jacques et al. A Estética do Filme. Campinas: Editora Papirus, 1995, 304p.



CÂMARA, Antônio da Silva et.al. A Sociologia da Arte e as Representações Sociais no Cinema Documentário. In: XIV Congresso Brasileiro de Sociologia. Rio de Janeiro, 2009.



FEATHERSTONE, Mike. Cultura de Consumo e Pós-modernismo. São Paulo: Studio Nobel, 1995, 223p.



MENDES, Adilson (org.). Ismail Xavier. Rio de Janeiro: Beco do Açougue, 2009. 292p.



SORLIN, Pierre. Sociologia Del Cine: la apertura para la historia de mañana. México: Fondo de Cultura Economica, 1985. 262p.



XAVIER, Ismail (org.). A Experiência do cinema: antologia. Rio de Janeiro: Edições Graal: Embrafilme, 1983, 475p.