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  Título
O pepel do narrador no filme 'Cão sem dono', de Beto Brant
Autor
Arthur Fernandes Andrade Lins
Resumo Expandido
Como sabemos, a natureza objetiva da imagem cinematográfica parece dificultar, e por vezes despotencializar o que viria a ser o narrador dentro de um filme ficcional. Isso porque “o mostrado tem muito mais força do que o dito, no sentido de que estimula a identificação com a diegese e apaga os elementos de discurso” (BRITO, 2006, 162). A voz narrativa no cinema se esconde na objetividade do plano cinematográfico.



Diante do mostrado, o espectador tente – pode-se dizer naturalmente – a esquecer que o que vê resulta de uma construção, e a voz por trás dessa visão dilui, para não dizer que se anula. Se há uma construção, o espectador pensa ser ela uma construção sua. (BRITO, 2006, 162).



Essa tendência natural à onisciência atribuída à linguagem cinematográfica é o que desejamos questionar, tendo em vista perceber a subjetivização do narrador cinematográfico, sem nos ater aos aspectos da estilística própria do autor/diretor de cinema.



Inicialmente, pensamos em dois procedimentos que podem facilmente ser descritos como tentativas de evidenciar o papel do narrador numa obra fílmica. São eles: Voz over seguida de flashback; e a utilização da câmera subjetiva.

Podemos ainda pensar no comportamento do narrador ao operar as diversas camadas de significado que confluem no resultado final de uma obra cinematográfica (pistas sonoras e visuais). Uma das funções do narrador, elencados por Genette é justamente a função de regência, de organização interna (1995, 254). Esta organização estética, além de produzir sentidos ao espectador, impõe determinada ‘visão de mundo’ sobre o universo diegético apresentado.



De acordo com o modelo proposto por Genette, Stam/Bur-goyne/Flitterman-Lewis distinguem dois tipos de narrador. Por um lado, encontramos o Narrador intradiegético. Trata-se de um narrador que é simultaneamente personagem, no mundo ficcional.(...). Por outro lado, existe o Narrador extradiegético. Será o narrador externo, que regula registos visuais e sonoros e se manifesta através de códigos cinemato¬gráficos e distintos canais de expressão e não através de um discurso verbal. (CARDOSO, 2003, 56)



Essa distinção feita nos parece relevante para se pensar nas obras onde identificamos o personagem-narrador em voz over, mas ainda não esclarece os níveis de complexidade e as diferentes formas de atuação do que podemos chamar de Narrador extradiegético.



Tomemos como exemplo o filme “Cão sem dono”, de Beto Brant, adaptação de uma obra literária narrada pelo personagem-herói em primeira pessoa. No filme, acompanhamos as ações dramáticas vivenciadas por esse personagem (Ciro), sem nos adentrarmos em sua consciência através de narração verbal (voz over). A sua presença física na tela, praticamente onipresente, é o que determina o seu status elevado em relação aos demais personagens da trama.



A percepção do personagem Ciro determina de maneira tão incisiva a posição do Narrador Extradiegético, que podemos pensar numa classificação para aproximar essa instância narrativa de um possível Narrador Autodiegético cinematográfico.

Os procedimentos estilísticos adotados na narração são utilizados como forma de materializar sonoro e visualmente a vivência de Ciro. A recorrência de planos fixos e tempos mortos, os, a crueza da cor desaturada e a cenografia minimalista, parecem escolhas coerentes com a tentativa de dar ‘voz’ ao Ciro sem recorrer à linguagem verbal. As marcas do discurso narrativo podem ser vistas como equivalentes no plano cinematográfico da psicologia interna do personagem e de sua relação com o mundo.



Essa interação mais complexa entre a personagem-herói que vivencia as ações narradas e o Narrador Extradiegético (instância narrativa), merece uma atenção especial para nos adentramos na problemática do narrador cinematográfico, sendo necessário principalmente diferenciar a função deste último, quando percebemos posições similares aquelas assumidas pelo narrador autodiegético na narrativa literária.

Bibliografia

AUMONT, Jacques. A estética do filme. Campinas, SP: Papirus, 2002.

BORDWELL, David. Narration in the Fiction Film. Madison: The University of Wisconsin Press, 1985.

BRITO, João Batista. Literatura no Cinema. São Paulo: Unimarco, 2006.

CÂNDIDO, Antônio. A personagem do Romance. In: A personagem de Ficção. Perspectiva. São Paulo: Perspectiva, 1964.

CARDOSO, Luís Miguel. A problemática do narrador. In: Lumina. Juiz de Fora: Facom/UFJF – v. 6, n.1/2,p. 57-72, jan/dez. 2003

GALERA, Daniel. Até o dia em que o cão morreu. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

GENETTE, Gérard. Discurso da narrativa. Lisboa: Veta, 1995.

LEITE, Lígia Chiappini Morais. O foco narrativo. 4 ed. São Paulo: Ática, 1989. (Série Princípios; 4).

REIS, Carlos e LOPES, Ana Cristina. Dicionário de Teoria da Narrativa. São Paulo, Ática, 1988.