/ / / / / / / / / / / / / /      Anais Digitais      / / / / / / / / / / / / / /

  Voltar para a lista
 
  Título
A construção do estranhamento na série Aeon Flux
Autor
Cristiano Figueira Canguçu
Resumo Expandido
A animação Aeon Flux é um experimento incomum de série televisiva, apresentando um universo ficcional excêntrico e abstruso, personagens grotescos e um ostentado desrespeito aos princípios da lógica narrativa: uma série construída para causar estranhamento no público a partir dos reiterados desafios às nossas pressuposições sobre sua coerência narrativa e sobre os gêneros ficcionais a que supostamente se vincularia.

Como Aeon Flux obtém esse efeito? Os principais recursos podem ser agrupados sob a categoria “inadequação”. Há uma profusão de acontecimentos excêntricos, ridículos, ou mesmo ilógicos, nos episódios da série, dentre os quais, a transformação do ventre de um ex-presidente numa alcova para encontros românticos. Aeon Flux enfatiza também os comportamentos sexuais atípicos: mesmo sem relações sexuais explícitas, a maior parte dos personagens engaja em comportamentos obscenos, em circunstâncias inadequadas ou abertamente fetichistas. A estranheza é construída também pelas características plásticas e gráficas da série: as anatomias dos personagens são altamente exageradas e distorcidas, ao modo de Egon Schiele. Tudo isso acompanhado por uma música recheada de timbres exóticos e dissonâncias.

Outro recurso empregado na poética do estranhamento em Aeon Flux é a frustração constante das nossas expectativas de gênero e de coerência narrativa. Os filmes de ação e aventura se caracterizam pela profusão de conflitos violentos e de proezas heróicas, convidando os espectadores a desfrutar de um programa emocional voltado para o entusiasmo. Aeon Flux reiteradamente cria e frustra as expectativas desse gênero: há uma inconstância moral da personagem principal, facilitada pelo fato de que a narrativa sonega ao espectador as verdadeiras motivações da protagonista. Em segundo lugar, a narrativa constantemente constrói uma situação de invencibilidade da protagonista durante proezas espetaculares e as encerra, em seu lugar, com fracassos retumbantes.

Faz parte dessa poética do estranhamento a combinação de alguns princípios e procedimentos do modo narrativo clássico com experimentações radicalmente anti-clássicas. Por exemplo, os personagens são caracterizados por objetivos e propósitos (embora estranhos), que estruturam o tempo da narrativa: o fim do filme ou do episódio coincide com a resolução dos esforços dos personagens para obter suas metas. Ao modo de Hollywood, há dois objetivos principais dos personagens, dos quais um é o enlace romântico. No entanto, desobedecem-se as normas clássicas de apresentar os personagens em comportamentos típicos e claros e de justificar narrativamente as mudanças nos comportamentos dos personagens: a série os situa em comportamentos anormais contraditórios, evitando que tenhamos hipóteses sólidas sobra o que poderá acontecer. Paralelismos, acasos e coincidências ocupam o lugar de principal motor narrativo, deixando em segundo plano as ações deliberadas dos personagens. Há, enfim, pouquíssimos vínculos entre os episódios. Tratando-se de uma narrativa seriada, isso é bastante curioso, pois não apenas os episódios raramente mencionam acontecimentos uns dos outros, mas se contradizem deliberada e abertamente: a própria protagonista morre freqüentemente e reaparece sem explicações.

No entanto, Aeon Flux não se restringe a uma poética da negação de normas narrativas socialmente partilhadas, mas as substitui por suas próprias normas intrínsecas, as quais por sua vez sustentam a apreciação e as expectativas dos fãs. Por exemplo, "Como será que Aeon vai morrer desta vez?"; ou "Qual esquisitice será explorada hoje?". Essa combinação de indisciplina e regularidade garante uma série televisiva conseguiu garantir um sucesso inesperado para uma produção tão inusitada.

Bibliografia

BORDWELL, David. Narration in the Fiction Film. Madison: University of Winsconsin, 1985.

BORDWELL, David et al. The Classical Hollywood Cinema. New York: Columbia University, 1985.

GOMES, Wilson. Princípios da poética. In: PEREIRA, Miguel et al. (orgs.). Comunicação, representação e práticas sociais. Rio de Janeiro: PUC, 2004. p.93-125.

JOST, François. La promesse des genres. Réseaux, Paris, n.81, p.11-31, 1997.

THOMPSON, Kristin. Storytelling in the New Hollywood. Cambridge: Harvard, 1999.