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  Título
Modernidade,modernismo,cinema: mudança cognitiva do homem da metrópole
Autor
Flávia Campos Junqueira
Resumo Expandido
Entre os séculos XIX e XX diversas mudanças puderam ser observadas decorrentes da industrialização e urbanização que avançavam a todo vapor. Enquanto as fábricas produziam bens de consumo em larga escala, as cidades atraíam trabalhadores do campo que vislumbravam melhores perspectivas de vida. A velocidade da produção fabril ecoava nas ruas com os primeiros automóveis e bondes elétricos, assim como as informações ressoavam por todos os lados por meio de jornais ilustrados, cartazes publicitários, da fotografia e do cinema. Neste contexto, a atenção da população obrigatoriamente teve de se tornar mais perspicaz.

A Revolução Industrial permitiu o avanço da sociedade rumo ao desenvolvimento urbano e, consequentemente, possibilitou mudanças profundas na cognição humana. A emigração populacional dos campos para as cidades provocaria mais que a exploração do assalariado e novas formações de classe, mas também levaria o homem a pensar de maneira diferente. Na tentativa de compreender a alma cultural da vida moderna, Georg Simmel (1979) defende o século XVIII como momento de libertação do homem de suas dependências históricas – o Estado, a religião, a moral e a economia.

Da perspectiva materialista podemos afirmar que as noções de tempo e espaço advêm dos processos materiais empregados na reprodução da vida social. Nas palavras de David Harvey “cada modo distinto de produção ou formação social incorpora um agregado particular de práticas e conceitos do tempo e do espaço” (1992, p. 189).

Faz-se necessário lembrar que a experiência subjetiva leva a diferentes percepções de tempo e espaço em qualquer época da humanidade, mas conforme Harvey consideramos importante reconhecer “a multiplicidade das qualidades objetivas que o espaço e o tempo podem exprimir e o papel das práticas humanas em sua construção” (1992, p. 189).

Neste contexto de reajuste do sentido de tempo e espaço as artes passaram por uma crise de representação. No momento em que certa experiência deixa de ser uma vivência única, podendo ser disseminada por diferentes espaços simultaneamente, a experiência individual perde seu sentido.

O período moderno foi instigante para os artistas que buscavam algo diferente das regras pictóricas de séculos. A tecnologia empregada para fins culturais como a fotografia e o cinema traziam novas possibilidades aos artistas em compasso com seu tempo. Mesmo movimentos que não utilizaram diretamente a tecnologia em suas produções foram, de alguma forma, influenciados por ela, fosse para criticá-la ou para exaltá-la.

Influenciados pelas idéias de Benjamin, podemos afirmar que no veloz contexto moderno o cinema representou a ascensão do visual como discurso social e cultural, fato que se tornou comum a partir de então. Este foi um importante fator responsável pela reestruturação do olhar.

Após a Primeira Guerra, enquanto o mundo passava por momentos difíceis, os russos viram no discurso modernista uma grande janela de expressão de suas ideologias. Encontraram ali espaço para importantes experimentações artísticas, principalmente no formalismo e no construtivismo. Neste contexto, o cinema construtivista utilizou ao máximo os recursos de seu meio, criando uma linguagem rápida, de cortes ágeis, e quebrando a linearidade da narrativa até então habitual. Essas características podem ser observadas na obra Um homem com uma câmera, de 1929 do cineasta Dziga Vertov.

Neste sentido, é particularmente clara a idéia de Vertov segundo a qual o Cine-Olho (expressão criada para nomear sua própria concepção do cinema) seria uma forma de visão não só mais eficaz como também mais adequada para dar expressão à vida moderna.

Bibliografia

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. São Paulo: Brasiliense, 1994

CHARNEY, Leo e SCHWARTZ, Vanessa R. O cinema e a invenção da vida moderna. São Paulo: Cosac & Naify, 2001

HARVEY, David. Condição pós-moderna: Uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. São Paulo: Edições Loyola, 1992

MACHADO, Irene. Tudo o que você queria saber sobre as novas mídias mas não teria coragem de perguntar a Dziga Vertov. In: Revista Galáxia, nº3, 2002.

SIMMEL, Georg. A metrópole e a vida mental. In: VELHO, Otávio Guilherme. O fenômeno urbano. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1979

VERTOV, Dziga. Kino-Eye: the Writings of Dziga Vertov (translated by Kevin O’Brien), Berkeley, University of California Press, 1984

VIEIRA, João Luiz. As vanguardas históricas: Eisenstein, Vertov e o construtivismo cinematográfico. In: BENTES, Ivana. Ecos do Cinema - de Lumière ao digital. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2007