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  Título
Deslocamentos Subjetivos e Reservas de Mundo
Autor
Ivana Bentes
Resumo Expandido
Morrinho. Uma maquete de 300 m2 na Favela do Pereirão no Rio de Janeiro reproduz, a céu aberto, numa construção impressionante feita de barro, tijolos pintados, material reciclado, fiação, um duplo miniaturizado da própria favela. Caos-construção, de casas, ruas, miniaturas de carros, postes, objetos, num conjunto impressionante. Uma maquete-miniatura-gigante e, mais, “vivendo” nela uma população de moradores e visitantes, bonecos feitos de blocos de LEGO que se movimentam pela mão de seus criadores.



Tem além da arquitetura impressionante, a vida da favela é recriada, resignificada pelos brinquedos em miniatura, carrinhos, caveirão-Lego, moto-táxi-LEGO, contador-de-história LEGO, traficante-LEGO, policial-LEGO, enfim um mundo-ambiente que não reproduz simplesmente o estado das coisas, mas é pleno de virtualidades.



A maquete do Morrinho virou atração turística no Pereirão tendo evoluído para a TV Morrinho, produção de micro-filmes em que os próprios garotos passaram a documentar as histórias, brincadeiras e dramas dos seus bonecos LEGO na comunidade. Depois da TV Morrinho, veio a Ong Morrinho e dentro dela o projeto Morrinho Exposição, Morrinho Social, etc.



Essa transmutação da vida em linguagem, um ponto de reviravolta na trajetória do Projeto, se dá a partir do momento em que as fabulações experimentadas no quintal de casa, em que cada um assume um personagem LEGO e lhe injeta tempo, subjetividade, vozes, gestos, passam a ser registradas/ficcionadas pelos próprios meninos resultando em micro-filmes surpreendentes. Ficções-documetais ou documentários das fabulações.



Os vídeos, de poucos minutos, da TV Morrinho, todos realizados dentro da favela-maquete dissolvem a fronteira entre documentário/ficção, funcionando como auto-etnografia, fabulação do cotidiano, ficcionalização do real, jogo/existência.



A estética desses micro-filmes nos interessa como ponto de partida de um mapeamento e análise, apenas esboçado e inicial, dos documentários produzidos fora do ambiente corporativo (dos “profissionais”) vindos das periferias produzidos por amadores, não-profissionais, por jovens das escolas livres de cinema e audiovisual, por todo um precariado urbano, em oficinas que se multiplicam em todo o país.



Questões que não são exatamente novas, basta olhar para a história do cinema, o fascínio diante da banalidade/singularidade cotidiana no chamado cinema das origens: a vida nas ruas, os transeuntes e curiosos e suas reações diante da câmera, multidões entretidas pelas vitrines, flanando, ou absortas pelo trabalho como nas descrições de Benjamin e Baudelaire. Ou ainda a “fábrica de fatos” de Vertot, e a massa/sujeito da História de Eisenstein, o cinema verdade e direto, as inquietações de Rouch diante do outro, os personagens sem qualidades de Godard até chegar a questões do contexto contemporâneo.



Momentos e problemas distintos que invocam algumas inquietações contemporâneas recorrentes que nos interessam: a fragilidade conceitual da busca e afirmação das “identidades sociais” e a insuficiência das teorias das representações sociais para dar conta das singularidades das vidas-linguagens. Não se trata aqui, pois, te fetichizar a produção desses outros sujeitos do discurso, nichos e guetos. Não se trata de nenhuma questão de “autenticidade”, autoridade, ou produção de identidades pret-a-porter.



O que surpreende nesses micro-filmes da TV Morrinho é uma restituição e transfiguração do “comum”, não simplesmente o “estado das coisas” e a banalidade cotidiana, no seu lirismo e/ou brutalidade, ou a encenação dos discursos midiáticos que contaminam o cinema brasileiro contemporâneo com filmes que muitas vezes são réplicas-maquetes do “senso comum”, duplicações de matrizes sociais gastas e despotencializadas. Como esboçar um pensamento critico dessas vidas-linguagens? Qual o arsenal teórico que podemos mobilizar? É o ponto de partida para pensar as vidas-LEGOS e suas derivas no documentário contemporâneo.
Bibliografia

BENTES. Ivana. Redes Colaborativas e Precariado Produtivo in Caminhos para uma Comunicação Democrática. Le Monde Diplomatique e Instituto Paulo Freire. São Paulo 2007

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FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade: a vontade de saber. Rio de Janeiro:

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________. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.

HARDT, Michael, NEGRI, Antonio. Império. Rio de Janeiro: Record, 2001.

HARDT, Michael e NEGRI, Antonio. Multidão: guerra e democracia na era do Império. Rio de Janeiro: Record, 2005.

LAZZARATO, Maurizio. As Revoluções do Capitalismo. Rio de Janeiro: Record.2006.

RANCIÈRE, Jacques.« Política da Arte », transcrição da apresentação de Jacques Rancière no seminário São Paulo S.A, práticas estéticas, sociais e políticas em debate (São Paulo, Sesc Belenzinho, 17 a 19 de abril de 2005)

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DELEUZE, G. Foucault, Brasiliense. SP