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  Título
Recordações de personagens: flashbacks que iluminam a arte audiovisual
Autor
Alex Ferreira Damasceno
Resumo Expandido
Quando assistimos a um filme reconhecemos um procedimento narrativo já amplamente convencionado e naturalizado no nosso imaginário: o Flashback. De certa forma, isso se deve ao fato de o cinema fazer uso desse recurso desde seus primórdios, seja em seus moldes mais clássicos, como também nos movimentos vanguardistas. Como sabemos pelo hábito, assim como já é indicado pela tradução do termo, trata-se de um retorno rápido no tempo: do presente da narrativa, saltamos para o passado. O que pretendo estudar aqui é justamente como a linguagem audiovisual constrói esse tipo de escultura temporal.

Contudo, bastou uma primeira revisão bibliográfica para encontrar diversos autores que já se debruçaram sobre o tema e definiram o flashback como um procedimento de menor complexidade expressiva. Jacques Aumont e Michel Marie (2003), por exemplo, o definem como uma “figura narrativa banal”, que “consiste em apresentar a narrativa em uma ordem que não é a da história” (p. 131). E os autores completam a crítica ao dizer que o flashback “não é uma figura formal, e um espectador que entra numa sala no meio de uma seqüência em flashback (...) não tem meio algum de percebê-la.” (p. 131).

Certamente que a maioria dos flashbacks – aqueles constituídos apenas na ordenação das cenas – se encaixa nas categorias de não-formal, banal e simples, como apontam os autores. Mas o que pretendo aqui, inspirado principalmente pelo pensamento de Arlindo Machado (2000), é promover um deslocamento do olhar para perceber uma diferença iluminadora, procurando flashbacks que transcendam essas limitações, e que expandem os recursos expressivos da arte audiovisual. Essa desabituação do olhar me fez perceber que o flashback pode se tornar um procedimento formal quando se apresenta a partir das recordações de um personagem.

Como aponta o filósofo Sören Kierkegaard, a recordação não é uma simples faculdade da memória, mas sim “uma visão distante, visão de poeta” (2002, p. 32), que emaranha situações, sentimentos, ambientes, reflexões. Sua característica principal é a idealidade. Essa essência lírica presente no conceito de Recordação em Kierkegaard também se conecta ao sentido etimológico do termo em português, proveniente do latim re-cordis, que significa “um retorna ao coração”. Diferente, dessa forma, do termo lembrança, cuja origem remete ao latim memorare (que por dissimilação se tornou menbrar, e depois lembrar), sendo assim diretamente relacionado meramente à ação da memória. O que proponho neste artigo é analisar o processo de criação desses flashbacks formais, em que o retorno no tempo é dado a partir das recordações dos personagens.

Como método, a principal inspiração é Sergei Eisenstein, teórico e cineasta que problematizou as especificidades da arte cinematográfica. Para isso, ao invés de olhar diretamente para o cinema, Eisenstein criou o conceito de Imagicidade, propondo que tal arte já existia antes mesmo da invenção do cinematógrafo: uma qualidade de cinema que já se apresentava na literatura, na pintura, nas artes plásticas em geral. De certo modo, o método eisensteiniano adverte: para se compreender o que há de específico no cinema, não se pode estudá-lo como algo fora da história das artes.

Como objeto empírico, optei por analisar a minissérie Capitu, dirigida por Luiz Fernando Carvalho. Justifico a escolha: basta um primeiro olhar na obra para que se perceba a intenção do diretor em construir o caráter lírico das recordações de seu personagem principal. Com a análise, percebemos que Capitu conflui diversas formas artísticas, como a manutenção do texto original literário, o uso de elementos teatrais e das artes plásticas. À sua maneira, tal confluência promove no audiovisual algo semelhante ao que Georg Lukács (2000) denomina na teoria do romance de Recordação criativa: uma superação do dualismo entre mundo exterior e vida interior. Assim, a minissérie produz imagens que remetem também à arte expressionista, tanto na pintura, como no cinema.
Bibliografia

AUMONT, Jacques; MARIE, Michel. Dicionário teórico e crítico de cinema. Campinas: Papirus, 2003;

CARVALHO, Luiz Fernando. Diálogos com o diretor. In: Vários autores. Capitu: minissérie de Luiz Fernando Carvalho a partir da obra Dom Casmurro, de Machado de Assis. Rio de Janeiro, Casa da Palavra, 2008;

DELEUZE, Gilles. A imagem-tempo. São Paulo: Editora Brasiliense, 1990;

EISENSTEIN, Sergei. A forma do filme. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.

EISENSTEIN, Sergei. O sentido do filme. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1990.

LUKÁCS, Georg. A teoria do romance: um ensaio histórico-filosófico sobre as formas da grande épica. São Paulo: Editora 34, 2000;

KIERKEGAARD, Sören. O Banquete. Lisboa: Guimarães Editores, 2002;

MACHADO, Arlindo. A televisão levada à sério. São Paulo: Senac, 2000;

TARKOVSKI, Andrei. Esculpir o tempo. São Paulo: Martins Fontes, 1998;