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  Título
O AMOR SEGUNDO B. SHIANBERG - MUITO ALÉM DO REALITY SHOW
Autor
Angélica Coutinho
Resumo Expandido
“O amor segundo B. Shianberg” é resultado de um contrato para a realização de uma minissérie atípica para a televisão – uma co-produção da TV Cultura, SescTV e Drama Filmes – no qual Beto Brant propôs que material seria usado posteriormente para uma versão cinematográfica. As filmagens aconteceram durante três semanas nas quais o diretor observou através de oito câmeras robotizadas, em um apartamento vizinho, a relação entre a videoartista Mariana Previato e o ator Gustavo Machado, ao mesmo tempo, em que através de uma mesa de corte eram selecionados os planos, como em um programa de TV ao vivo. Depois foram dois meses e meio editando os “capítulos” para TV e apurando tecnicamente o material. Não havia um roteiro, apenas uma carta de intenções que, segundo o diretor, propunha que os artistas “entrassem em conexão, criassem uma cumplicidade artística”. Os limites entre ator e personagem também não foram definidos, mas tanto Mariana quanto Gustavo criaram nomes para seus personagens: passaram a se chamar Gala e Felix. A interferência do diretor se dava por torpedo ou e-mail quando ele sentia que havia alguma desagregação. O objetivo era observar uma relação amorosa. A gravação foi apenas a primeira etapa do trabalho que concretiza a experiência de confinamento criada pelo psicólogo Bernardo Shianberg, personagem do livro “Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios”, de Marçal Aquino, constante parceiro do diretor. Uma etapa que cumpriu o objetivo inicial da exibição de quatro capítulos pela TV Cultura, em julho de 2009, buscando “não fazer cinema para televisão, mas criar algo que dialogasse com a linguagem da TV”, como define Brant. Mas havia ainda o segundo momento: condensar ainda mais o material exibido para uma versão cinematográfica. Estruturado narrativamente em torno de uma relação amorosa em processo enquanto Mariana/Gala trabalha em seu vídeo e Gustavo/Felix no palco, “O amor segundo B. Shianberg” foi exibido para o público pela primeira vez no Festival do Rio de 2009, momento em que foi dado mais um passo de aprofundamento da experiência do filme que incorporou, posteriormente, os resultados de uma performance realizada em São Paulo: enquanto Brant exibia o longa, Mariana Previato e Gustavo Machado, cada um de um lado do palco, interferiam com imagens e textos fazendo “comentários”. Mais uma vez – como que retomando a experiência inicial – não havia conhecimento do que um ou outro poderia propor ou fazer. Como desdobramento da performance foram incorporados três “eventos” visuais na versão final do filme: a sequência de imagens do ovo, do coração e do fragmento do quadro pintado pelo artista do filme “Crime delicado” – filme anterior de Brant. Logo, apesar de a primeira vista, a proposta assemelhar-se ao reality show mais antigo da TV brasileira – Big Brother – há diferenças significativas na proposta. Uma delas é que ao mesmo tempo em que no reality, os participantes criam seus personagens e um vocabulário próprio construído ao longo da experiência de 10 anos no ar, em “O amor...”, criar um personagem era prerrogativa do projeto cujo objetivo dos participantes não era ganhar um prêmio milionário, mas criar um vídeo artístico elaborado pela mulher e tendo como personagem o homem. Por outro lado, o que supostamente seria o diferencial de um reality show em relação à ficção tradicional, ou seja, flagrar o acaso, o inesperado realiza-se com mais profundidade no projeto de Brant do que no programa Big Brother. Nossa proposta, portanto, é analisar comparativamente as duas experiências considerando suas intenções e mecanismos.

Bibliografia

ALENCAR, Mauro. A Hollywood brasileira – Panorama da telenovela no Brasil. Rio de Janeiro: SENAC, 2002.

ALMEIDA, Heloisa Buarque de. Televisão, consumo e gênero. Bauru, AP: EDUSC, 2003.

BOURDIEU, Pierre – Sobre a televisão – Jorge Zahar Editor – Rio de Janeiro, 1996

BUCCI, Eugênio (org.) – A TV aos 50: criticando a televisão brasileira no seu cinquentenário – Ed. Fundação Perseu Abramo – São Paulo, 2000

MACHADO, Arlindo. A televisão levada a sério. São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 2000.

SOUZA, José Carlos Aronchi. Gêneros e formatos na televisão brasileira. São Paulo: Summus, 2004.

WOLTON, Dominique – Elogio do grande público: uma teoria crítica da televisão –Editora Ática – São Paulo, 1996