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  Título
Dias de Nietzsche em Turim de Júlio Bressane: o aforismo em imagem
Autor
Adriano Carvalho Araújo e Sousa
Resumo Expandido
Nietzsche é considerado um signo da cultura, em séries literárias e filosóficas ocidentais, que Júlio Bressane aborda segundo o processo de transcriação. Haroldo de Campos define o procedimento como traduzir o próprio signo, “ou seja, sua fisicalidade, sua materialidade mesma [...] propriedades sonoras [e] de imagética visual”, tudo o que remete à complexidade do original, do signo estético. O significado torna-se a baliza, mas visa-se algo mais que a forma, um “avesso da chamada tradução literal” (CAMPOS, 1992, p. 35). Em vez de usar a literatura como entrecho, traduz-se uma forma-Nietzsche para o cinema, o período que passou em Turim, momento da última chama criadora, quando concentra-se no retorno incisivo à crítica radical dos valores, contra o fantasma de Wagner e os mal-entendidos em torno de Zaratustra.

Discuto o processo de transcriação através de dois elementos: a forma do texto nietzschiano a partir do aforismo; e a experiência abismal da música, como desmesura do corpo, convite à descida aos infernos, à transluciferação como encenação da aventura diabólica do artista, que em Nietzsche ganha força no estar fora de si e numa transfiguração da experiência contra o sofrimento.

O filósofo andarilho e o prenúncio da tragédia permitem debater o uso de planos longos como sintaxe de uma transcriação do aforismo entendido como um “corpo de preceitos e formas sentenciosas”, expressão concisa de um princípio ou verdade geralmente aceita, transmitida sob a forma de máxima (PIRES FERREIRA, 1981).

O aforismo encontra seu equivalente no recurso a planos longos condensados em torno de uma idéia, mas numa fuga permanente de um centro ordenador, explorando situações: o passeio solitário do protagonista nos museus e cafeterias; externas que mostram o encanto provocado por uma arquitetura não totalmente contaminada pelo moderno.

A câmera-na-mão desfila imagens desse encanto do filósofo andarilho com a cidade e prepara o espectador para a tragédia que a inserção de “Liebestod”, parte da ópera Tristão e Isolda de Wagner, prenuncia.

Textos, sons e música são montados como se fossem imagens, dissociados, não constituem comentário; para dar ritmo ao filme, no sentido de captar as questões de Nietzsche, de marcar a história, a diegese.

Enquadramento fora de foco, a câmera percorre cortinas, poltronas e balcões vazios. Mostra um close de Nietzsche extasiado com a ópera Carmen de Bizet. Não há diálogos, apenas a solidão radical do personagem. O mesmo ocorre nas externas, Bressane mostra uma Turim praticamente vazia, o que realça o estado de interiorização do personagem. Nas locações dessa fantasmagoria, só Nietzsche tem a palavra. Somente sua voz reverbera em todo o longa-metragem. Entretando, no lugar do ensimesmamento, há o encontro com as forças da natureza através do trágico, um estar fora de si que se traduz na paisagem do Rio de Janeiro, cidade que guarda semelhanças à forma feminina, na associação com o nu e o erotismo sutil das imagens, como a moça com vaso.

O ritmo, dado por imagens mostra o homem e a natureza indissociáveis, para evocar a transvaloração dos valores. Aforismo (literatura) e música (Wagner, Bizet e o próprio Nietzsche) convergem para a filosofia do protagonista. Dias de Nietzsche em Turim “solicita o contraponto das peças musicais do filósofo que definem a cadência do andar, do pensar e do escrever, até que o fluxo se interrompa com o colapso dessa figura do andarilho, sozinho em sua viagem [...]. Há enlevo, produção, mas a transvaloração dos valores não dá sinais de ter ultrapassado sua experiência de exilado. Vem a crise [...]. Nietzsche conduz seu ritual dionisíaco entre quatro paredes. Nesta cirscunstância, a dança e o teatro de máscaras [eu diria a tragédia através deles], definem a presença de um impulso afirmativo até o fim” (XAVIER, 2006, p. 23-24).

Bibliografia

Aphorism. Encyclopaedia Britannica. Ultimate Reference Suite. Chicago: Encyclopædia Britannica, 2010.

CAMPOS, Haroldo. Metalinguagem e Outras Metas. 4 ed. São Paulo: Perspectiva, 1992.

CONVERSA com Júlio Bressane, Miramar, Vidas Secas e o Cinema no Vazio do Texto. Cinemais, n. 6, jul. ago. 1997.

NIETZSCHE, Friedrich. Obras Incompletas: Friedrich Nietzsche. Tradução e notas de Rubens Rodrigues Torres Filho. 2ed. São Paulo: Abril Cultural, 1978.

PIRES FERREIRA, Jerusa. O Útil e o Agradável: preceito em “romance” de cordel, Comunicação e Sociedade, São Paulo, nº 6, 137-145, set. 1981.

XAVIER, Ismail. Roteiro para Júlio Bressane. Revista Alceu, v. 6, n. 12, p. 5-26, jan/jun 2006.