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  Título
O cinema como revisão conceitual da cultura: O desprezo, de Godard
Autor
Josette maria alves de souza monzani
Resumo Expandido
O desprezo é uma tradução intersemiótica do romance homônimo de Alberto Moravia.

Três características parecem-nos ter agradado Godard no romance, tendo em conta sua futura carreira como diretor: a) o protagonista ser um escritor que se torna, circunstancialmente, roteirista, o que permite à diegese inscrever-se no modus operandi da criação cinematográfica e discutir as intenções embutidas no ‘como’ se realiza um filme; b) o protagonista ser um homem de letras, verbal por excelência, na oralidade e na escrita, enquanto a protagonista é bela e enigmaticamente visual; uma obra plástica: uma escultura; c) o fato do filme que está sendo feito dentro do filme ser a Odisséia, de Homero, marco inicial da narrativa épica ocidental, o que possibilitaria ao diretor estabelecê-la como um ponto de partida para a reflexão sobre combinações (direções) e sentidos, sobre uma revisão da História Social da Narrativa – da literatura oral à escrita, à escultura, ao teatro e ao cinema etc. A Odisséia, associada às atuações dos atores, permite também a associação dos quatro protagonistas (Michel Piccoli, Brigitte Bardot, Fritz Lang e Jack Palance – respectivamente, escritor e esposa, diretor e produtor do filme em desenvolvimento na diegese) a deuses gregos – ou mitos - de passagem pela terra e em conflito, ou ainda, se se unir a esses elementos o destaque dado no filme à arquitetura, a paisagem e os cenários grandiosos, pode-se trazer à lembrança a encenação das peças gregas ao ar livre. O que buscaremos discutir é o obnubilamento do particular da trama em função do conceitual, que os traços brevemente elencados vão fazendo surgir, que nos permite colocar O desprezo enquanto uma menipéia moderna, com os sentidos que ela possa ter hoje no cinema.

Bibliografia

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DESPREZO (O). Jean-Luc Godard, França, 1963.

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GUINSBURG, J.; TEIXEIRA COELHO, J.R.; CHAVES CARDOSO, R. (Org.). Semiologia do teatro. São Paulo: Perspectiva, 1978.

KRISTEVA, Julia. Introdução à semanálise. São Paulo: Perspectiva, 1974.

MARIE, Michel. Étude critique. Le Mépris, Jean-Luc Godard. Paris: Nathan, 1993.

MERLEAU-PONTY, Maurice. O olho e o espírito. São Paulo: CosacNaify, 2004.

MORAVIA, Alberto. O desprezo. Lisboa: Ulisseia, s/d.

ROSENFELD, Anatol. Mario de Andrade. In Letras e leituras. São Paulo: Perspectiva, 1994.