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  Título
Uma análise para o cinema que recorta permanências na história
Autor
Alfredo Dias D Almeida
Resumo Expandido
Como fonte e objeto de pesquisa na área das ciências sociais, os documentários que registram aspectos culturais de uma determinada comunidade, de um grupo social ou de um indivíduo configuram-se como um instrumento diferenciado, singular para a compreensão de uma determinada realidade, pois possibilitam um recorte no tempo e no espaço de permanências culturais, com uma riqueza de detalhes dificilmente alcançada por qualquer outro meio de registro.

Todo produto audiovisual, incluindo o documentário, é um fenômeno comunicacional complexo, que envolve recursos discursivos linguísticos e não-linguísticos, articuladas para a produção de sentido. O documentário, em especial, é ainda o resultado da interação ou do embate entre diferentes sujeitos de diferentes culturas, a do sujeito-narrador e a do sujeito “documentado”. Como, então, proceder à sua análise?

Analisar a interação entre essas diferentes culturas pressupõe entendê-las como textos, ou estruturas em que se podem ler diferentes discursos sociais, com diferentes significados. Ou seja, interpretar o que está dito e o que está não-dito em cada discurso e no discurso complexo gerado pela relação de uns com os outros num grupo de discursos, da mesma maneira que um psicanalista interpreta um sonho e com as mesmas ressalvas: para identificar seu significado, ou significados, tomando por base o universo simbólico do produtor do discurso (GEERTZ, 1989, p. 3-21).

O significado dos discursos, porém, não se esgota em si mesmo. Discursos são parte integrante de um determinado contexto sócio-histórico, e não algo externo aos conflitos sociais. O contexto sócio-histórico é determinante na produção, circulação, manutenção ou transformação das representações que as pessoas fazem de si e das “teias de significado” que formam as relações e identidades que se definem numa sociedade.

O discurso é uma prática social. Ele estabelece uma relação dialética com a estrutura social. Ao mesmo tempo em que o discurso se afirma como um dos princípios estruturadores da vida social, é por ela estruturado e condicionado. E, como prática social, ele não pode ser entendido separadamente das práticas não-discursivas.

Com base nesse referencial, proponho uma metodologia de análise fílmica que envolve duas formas de compreensão inseparáveis e interpenetráveis, contextual e internamente. Para a abordagem interna dos filmes, apóio-me em Jean-Claude Bernardet (1985, p.183), para quem a análise de um filme pressupõe “descobrir mecanismos de composição, de organização, de significação, de ambigüidade, estabelecer a coerência ou as contradições entre estes mecanismos”. Nesse movimento, procede-se a uma descrição interpretativa dos discursos envolvidos, apreendendo as estruturas de significados a partir dos quais esses discursos ganham inteligibilidade.

Num movimento complementar, para analisar externamente o filme, os discursos são discutidos de acordo com seus contextos de produção, os quais também lhes cobram sentido. Aqui, discute-se como os filmes se inserem no panorama político-cultural do lugar e da época de sua realização e as condições de construção de seus discursos. Verifica-se que “regras” esses discursos estabeleceram; e como e por que certas manifestações culturais, entre todas as possíveis, passaram a constituir objeto de estudo e de registro dos cineastas.

A título de exemplicação para a metodologia de análise proposta, serão discutidos dois documentários da década de 1960: Quilino (1966), de Jorge Prelorán e Raymundo Gleyzer, sobre a arte plumária e em palha das mulheres de Quilino (Argentina), e Vitalino/Lampião (1969), de Geraldo Sarno, sobre o artesanato de barro no Nordeste brasisleiro.

Bibliografia

BERNARDET, Jean-Claude. Cineastas e imagem do povo. São Paulo: Brasiliense, 1985.

D’ALMEIDA, Alfredo Dias. A construção do outro nos documentários de Geraldo Sarno e Jorge Prelorán. 2008. 257 f. Tese (Doutorado) – Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina, Universidade de São Paulo, 2008.

GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 1989.

PARANAGUÁ, Paulo Antonio (ed.) Cine documental en América Latina. Madrid: Ediciones Cátedra, 2003.

SANTEIRO, Sérgio. A voz do dono. Conceito de dramaturgia natural. Filme cultura, Rio de Janeiro, n. 30, ago. 1978. p.80-85.

SARNO, Geraldo. Quatro notas (e um depoimento) sobre o documentário. Filme cultura, Rio de Janeiro, n. 44, abr.-ago. 1984. p. 61-64.