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  Título
Cine-Arqueologia:Uma proposta para as relações entre cinema e história
Autor
Bernardo Teodorico Costa Souza
Resumo Expandido
O presente trabalho propõe discutir problemas referentes à abordagem das relações entre Cinema e História, apresentando o filme “Serras da Desordem” como exemplo de procedimento narrativo que não apenas dispõe o filme como fonte histórica, mas o constitui como elaboração historiográfica.

Em “Serras...”, os procedimentos narrativos com uso de “imagens de arquivo” se caracterizam pela articulação dessas “imagens da história” de forma não cronológica, construindo uma dinâmica temporal sincrônica; os “arquivos” se arranjam sem respeitar uma linearidade histórica, coexistindo num mesmo plano temporal.

Essa indistinção temporal corresponde à apresentação do tempo que caracterizaria o cinema moderno segundo a proposição de Deleuze, para quem, nesse regime de imagens nós não lidamos mais com uma imagem indireta do tempo que resulte do movimento (uma cronologia narrativa resultante de um encadeamento de ações), mas uma imagem-tempo direta da qual resulta o movimento. “Não é mais um tempo cronológico que pode ser perturbado por movimentos anormais, mas um tempo crônico, que produz movimentos anormais e essencialmente falsos”(DELEUZE,1990)

Essa potencia falsificadora do cinema moderno, ao constituir no filme a independência de uma cronologia causal sobre a qual os eventos se dariam, sujeitaria, assim, a “história” dentro da narrativa a uma dinâmica “descontínua”.

Se partirmos da oposição que Pasolini faz à Semiologia do cinema(PASOLINI,1982) e pensarmos, de acordo com Deleuze, que



“(...)Mesmo com seus elementos verbais, esta (a imagem cinematográfica) não é uma língua nem uma linguagem. É uma massa plástica, uma matéria a-ssignificante, e a-sintáxica, matéria não linguísticamente formada, embora não seja amorfa e seja formada semiótica, estética e pragmaticamente . É uma condição, anterior, em direito, ao que condiciona. Não é uma enunciação, não são enunciados. É um enunciável”.



nos depararemos com o problema da articulação das “imagens de arquivo” em “Serras...” como a articulação da matéria própria a compor os documentos da história (e não sua representação sígnica).

Esse exercício de escavar e reordenar as matérias do tempo é exatamente o método de abordagem da História que Foucault nos apresenta sob os conceitos de Arqueologia/Genealogia, exceto por uma central diferença:

Se, de acordo com foucault, “A genealogia é cinza: ela é meticulosa e pacientemente documentaria. Ela trabalha com pergaminhos embaralhados, riscados, várias vezes reescritos.”(FOUCAULT,2003), uma empreitada genealógica através do cinema nos coloca um problema inteiramente novo:

A genealogia à qual Foucault se refere é constituída em duas instancias, uma material, arquivolítica, e outra literária, cinza como lápis ao tom do exercício de inscritura que a articulação da escrita impõe.

Já no caso do cinema, estaríamos tratando de uma feitura historiográfica que se constrói não mais “sobre” a matéria das cicatrizes do tempo (pergaminhos e demais “arquivos”), mas através dela mesma. No cinema a matéria arquivolítica e a escrita não se dissociam. Os arquivos agenciados nessa montagem arqueológica se apresentam em si, constituindo a narrativa pela própria materialidade que reaparece no ecrã. A narrativa documentária é feita, deste modo, como no caso da fabulação, em ato, processualmente.

Propomos, então, tomar as possíveis implicações da noção de “Potencias do Falso”(DELEUZE,1990) articuladas às questões impostas pela “ressignificação(BERNARDET,2000) na montagem para, desta forma, problematizar as “potencias do falso” a serem aplicadas na representação do tempo historiográfico: A “ressignificação” como estratégia “falsificante” do material fílmico de “arquivo”, abordando a possibilidade do cinema (sua potencialidade narrativa) como “contra-história” não nos termos de Ferro(FERRO,1992), mas como “contra-verdade” na acepção Nietzscheana de “verdade”(NIETZSCHE,1987), ou seja, sua força genealógica a substituir a noção de “verdade” pela de “acontecimento(FOUCAULT,2003)
Bibliografia

BERNARDET, Jean-Claude. “A subjetividade e as imagens alheias: ressignificação” in G. Bartucci (org) Psicanálise, cinema e estéticas de subjetivação, S.Paulo: Imago, 2000

DELEUZE, Gilles. Cinema2: a imagem-tempo. São Paulo: Brasiliense, 1990

FERRO, Marc. Cinema e história. Rio de Janeiro. Paz e Terra, 1992

FOUCAULT, Michel. A arqueologia do Saber.Rio de Janeiro, Forense. 2005

FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso. São Paulo: Loyola, 1996

FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Org. e trad. de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 2003

MORETTIN, E.; NAPOLITANO, M.; CAPELATO, M. H.; SALIBA, E. T. (orgs.). História e cinema: dimensões históricas do audiovisual. São Paulo: Alameda Casa Editorial, 2007

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Genealogia da moral: Um escrito polêmico. São Paulo: Brasiliense, 1987

PASOLINI, Pier Paolo. “A língua escrita da realidade” in Empirismo Herege. Lisboa: Assírio & Alvim, 1982

VASCONCELLOS, Jorge. Deleuze e o Cinema. Rio de Janeiro: Editora Ciência Moderna, 2006