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  Título
Sensacionismo: narrativa, corpo e sensorialidade em Claire Denis
Autor
Julio Bezerra
Resumo Expandido
O objetivo desta proposta é pensar o cinema da francesa Claire Denis como uma forma diferente de aproximação do gesto cinematográfico, de inscrição do corpo no espaço e de instalação de narrativas sensoriais. Em seu cinema materialista, tudo é transmitido por meio do espetáculo de um ser humano em movimento. De “Chocolate” (1998) a “O intruso” (2004), a cineasta e seus parceiros (em especial a fotógrafa Agnes Godard) caminharam em direção a uma espécie sedutora de minimalismo, embalada em uma câmera apaixonada pela pele, em elipses estruturantes, e no emprego sensual da música.



Denis se ocupa em nos fazer perceber de uma forma extraordinariamente vívida a presença de um personagem. Opacidade é parte viva dessa estratégia. Quanto mais sentimos as emoções dos personagens, mais conseguimos entendê-los. Os longas de Denis são como organismos vivos, estados que exalam fluídos por toda a parte. Eles encontram um centro em torno do corpo. Um corpo que se equilibra entre a sua materialidade, sua espessura impenetrável, e seu sentido simbólico. Para Denis, o corpo é o limite entre o mundo e o sentido.



Diversos autores já apontaram para essa centralidade do corpo na obra de Denis. Para Adrian Martin (2008), por exemplo, este cinema passa por quatro fases ou tendências principais. A primeira delas diz respeito à questão pós-colonial, traduzida em seus filmes em um jogo de cores e corpos soltos nos planos. A segunda se refere às condições e regras do espaço social que marcam os limites de atuação dos corpos, que, por sua vez, absorvem, reagem, resistem, respeitam este "enquadre" ou o contestam. A terceira centra-se sobre o desejo, em um íntimo e animal. A quarta e última fase revela o tempo que passa entre os longas, seguindo sempre os mesmo atores ao longo dos anos (muitas vezes em papéis que parecem continuar ou fazer eco a um papel anterior).



Não é novo pensar na sétima arte como uma dramaturgia das ações concretas, objetivas, gestuais. O corpo sempre foi matéria-prima do cinema. A própria nouvelle vague levou bem longe a idéia de um cinema das atitudes e posturas. Deleuze (2005) se deteve sobre este cinema e suas diversas ramificações, de Godard a Cassavetes, passando por Garrel. Em Godard, por exemplo, as atitudes do corpo são as categorias do próprio espírito, e o gestus é o fio que vai de uma a outra categoria.



Denis, no entanto, afirma um paradigma diferente. Ela opera no entrecruzamento entre uma narrativa como porta de entrada e acesso, a centralidade do corpo, e a sensorialidade que caminha junto a tudo isso. A dramaturgia se faz por meio de fragmentos de vida sem significados fechados. A mise-en-scène é fluxo, suspensão. O autor deixa de ser o organizador supremo de significados e leituras. E, ao contrário do cinema moderno, que rompeu o pacto de confiança entre o espectador e a imagem, testemunhamos em Denis "uma volta à crença na imagem. Como uma afirmação de crença no mundo” (Monassa, Contracampo, n° 66).



Ao longo da apresentação, atravessaremos estas questões para afirmar este novo lugar do cinema dos corpos que Denis (e outros cineastas contemporâneos) vêm cultivando. É um cinema de contornos imprecisos, onde talvez não haja características suficientemente indeléveis. A sensação assume a condição de força primordial da realidade. Um realismo sensacionista, para usar a expressão de Fernando Pessoa. Há somente sensações e nossa consciência delas.



Denis chama o espectador pra mais perto, para compartilhar com ele alguma coisa. Para o espectador, o que se estabelece é uma relação com o filme não mais como cognitiva e, sim, sensorial. A breve incursão de Merleau-Ponty (1983) na teoria do cinema nos ajuda. Segundo ele, o cinema define as condições que fazem dele lugar privilegiado da expressão de uma certa “visão do mundo”. A nossa hipótese final é justamente esta: o cinema de Denis justifica a crença no cinema como um modo de conhecimento a respeito de nosso comércio com o mundo.
Bibliografia

BEUGNET, Martine. Claire Denis. Manchester: Manchester University Press, 2004.



BRAGANÇA, F. “Filmar, hoje, um corpo (em alguns atos)” em Revista Cinética. Disponível em: http://www.revistacinetica.com.br/filmarumcorpo.htm Acesso em março de 2010.



DELEUZE, Gilles. A Imagem tempo. São Paulo: Brasiliense, 2005.



MARTIN, Adrian. ¿Qué es el cine moderno? Santiago: Uqbar, 2008



MERLEAU-PONTY, Maurice. “O cinema e a nova psicologia”. In: XAVIER, Ismail (org.). A experiência do cinema. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1983, p.101-117.



MONASSA, Tatiana. “Cinema mundo”. Contracampo, n° 66. Disponível em: http://www.contracampo.com.br/66/cinemamundotatiana.htm Acesso em março de 2010.



MORREY, Douglas. “Open Wounds: Body and Image in Jean-Luc Nancy and Claire Denis”. Film-Philosophy, vol. 12, no.1, 2008. Disponível em: http://www.film-philosophy.com/2008v12n1/morrey2.pdf. Acesso em março de 2010.