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  Título
Da tragédia à comédia: adaptação e paródia de Shakespeare no cinema
Autor
Marcel Vieira Barreto Silva
Resumo Expandido
A presença do teatro de William Shakespeare no cinema possui uma longa tradição. Seja nas diversas apropriações durante o período silencioso, seja nas inúmeras adaptações que buscam tanto encenar as peças mantendo o mais possível a trama e a linguagem (Olivier, Welles, Polanski, Burge, Branagh), quanto reinscrever os elementos textuais em novos contextos culturais e expressivos (Kurosawa, Godard, Greenaway, Jarman, Candeias, Bhardwaj). Nos filmes, dentro de situações históricas particulares, as formas de apropriação e adaptação do teatro shakespeariano variam bastante e, como tal, motivaram reflexões teóricas também diversas. A partir de uma reflexão sobre a atualidade das abordagens teóricas sobre a presença de Shakespeare no cinema (Manvell (1971) e Jorgens (1977)), pretendemos discutir três filmes do último decênio que se apropriam de tragédias shakespearianas e, através de procedimentos paródicos como o deslocamento tempo-espacial da encenação, a ridicularização dos personagens e a deliberada mistura de gêneros, tornam-se obras cômicas. O primeiro é um filme estadunidense de 2001, chamado Scotland PA, dirigido por Billy Morrissette e que se trata de uma apropriação de Macbeth em chave cômica: a trama da história se passa em uma lanchonete de fast-food numa localidade rural da Pensilvânia, com os conflitos políticos e morais do texto-fonte transpostos no estilo da cultura pop dos anos 1970. O segundo filme, de 2005, chama-se O casamento de Romeu e Julieta, dirigido por Bruno Barreto e, como o título denuncia, reencena a tragédia de Shakespeare sobre o amor proibido dos jovens amantes. Nesse caso, o destino trágico da peça já desaparece de cara, uma vez que o “casamento” indica um final feliz no estilo mais tradicional das comédias românticas. E, finalmente, o terceiro é um filme também estadunidense de 2008, chamado Hamlet 2, dirigido por Andrew Fleming e que se apropria da representatividade cultural de Shakespeare para mostrar uma história bastante carregada de teor nonsense, sobre um professor de teatro numa escola secundária que, na tentativa de salvar o emprego, escreve uma seqüência mirabolante de Hamlet para ser encenada por seus alunos. Cada qual ao seu modo, esses filmes utilizam estratégias de adaptação e apropriação para deslocar os sentidos da matriz teatral shakespeariana, enfatizando particularmente a transformação do tom trágico das peças em formas cômicas de representação. De fato, ao por esses filmes em contraponto com a longa tradição de filmes shakespearianos, podemos inferir que eles se inserem numa perspectiva de apropriação dos cânones literários ocidentais e inserção das obras em novos contextos tanto sociais e culturais, quanto de estilo e de gênero. Essa perspectiva, apesar de possuir exemplos anteriores na história da adaptação cinematográfica, popularizou-se nos anos 1990 a partir de obras como Clueless, de Amy Heckerling (a partir de Emma, de Jane Austen) e Ten things I hate about you, de Gil Junger (a partir de The Taming of the Shrew, de Shakespeare). Nesse sentido, é objetivo dessa proposta discutir essas formas contemporâneas de apropriação dos cânones literários – no nosso caso, o teatro shakespeariano – e, a partir das análises dos filmes, refletir sobre as condições sociais, culturais e cinematográficas que motivam e sustentam esses novos processos de adaptação.
Bibliografia

BURNETT, Mark Thornton. Filming Shakespeare in the Global Marketplace. Londres: Palgrave MacMillan, 2007.



HOPKINGS, Lisa. Relocating Shakespeare and Austen on Screen. Londres: Palgrave MacMillan, 2009.



JORGENS, Jack. Shakespeare on Film. Bloomington: Indiana. University Press, 1977.



ROTHWELL, Kenneth. A History of Shakespeare on Screen: a century of film and television. 2 ed. Cambridge: Cambridge University Press, 2007.



MANVELL, Roger. Shakespeare and the film. London: Dent and Sons; New York: Praeger Publishers, 1971.