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  Título
Road movie, ecocriticismo e paisagem sertaneja no cinema brasileiro
Autor
Raquel do Monte Silva
Resumo Expandido
O espaço de pouco mais de uma década marca duas produções – Central do Brasil (1998) e Viajo porque preciso, volto porque te amo (2009) – que, entre outras similaridades, percorrem o espaço sertanejo através do road movie. Apesar do encontro de gênero, as duas obras lançam olhares díspares sobre a região. Neste sentido, cabe-nos apontar e comparar a perspectiva construída pelos cineastas Walter Salles Júnior e Marcelo Gomes e, no segundo momento, refletir sobre questões vinculadas à construção da ambiência narrativa no que se refere à imagem (enquadramento e fotografia). Para tanto, utilizamos a abordagem dos estudos da Ecocrítica Literária que nos auxilia na compreensão da representação da paisagem.



Central do Brasil é um melodrama que traz uma viagem iniciática realizada pelos personagens Dora e Josué ao percorrer o interior do Nordeste do Brasil. No enquadramento da paisagem, por exemplo, observamos que o diretor partilha da lógica do excesso articulando estratégias visuais que confirmam a sua tese central: o sertão nordestino possibilita a redenção, o encontro com a identidade perdida e com o Brasil ideal. Já em Viajo porque preciso, volto porque te amo, o road movie traz as observações do personagem José Renato sobre o espaço sertanejo. Simultaneamente, a viagem favorece ao personagem-narrador o encontro com a subjetividade.



A abordagem das duas obras será colocada pela perspectiva dos estudos ecocríticos. A aproximação com o ecocriticismo contribui para um novo olhar e um novo modelo metodológico que ilumina as relações entre as obras de arte e o mundo natural e, nosso caso, mais especificamente, entre dois filmes e a paisagem. Neste exercício de transdisciplinaridade interessa-nos compreender, sobretudo, o modo como as obras mencionadas dialogam e divergem no que se refere à representação do espaço natural. Segundo o pesquisador americano Lawrence Buell, a obra com preocupação ambiental poderá ser entendida como aquela onde esteticamente o mundo não humano surge como uma presença vital na delineação do destino humano, onde a especificidade de um lugar ou de um ser é transmitido tendo em conta o seu habitat, onde o envolvimento ético da personagem é visível, onde o ambiente é perspectivado como uma entidade em movimento, em constante transformação (1995).Transpondo para o campo cinematográfico e para as obras em questão, interessa-nos investigar de que forma o espaço é representado narrativamente.



A análise dos dois filmes permite-nos inferir que a busca identitária, o diálogo histórico e a construção imagética do espaço sertanejo iniciada em Central do Brasil e acentuada em Viajo porque preciso favorece o surgimento de uma poética do espaço que dialeticamente desconstrói e reabsorve o projeto regionalista moderno. A análise possibilita também afirmar que a perspectiva destas obras comunga com a ecosofia de Guattari no sentido que a articulação dos três registros da ecologia – o ambiental, o social e o subjetivo – colaboram para uma nova expressividade poética. Assim, em um jogo de espelhamento, ao nos debruçarmos sobre os elementos visuais, fotografia e enquadramento, poderemos compreender como produções distintas do cinema contemporâneo brasileiro aprofundam e dialogam com a perspectiva ecocrítica.

Bibliografia

BACHELARD, Gastón. A poética do espaço. São Paulo: Martins Fontes, 1988.

BUELL, Lawrence. The Envirommental Imagination: Thoreau, Nature Writting, and the Formation of American Culture. Cambridge/ London: The Belkmap Press of Havard University Press, 1995.

D’ALLONES, Fabrice. La Lumière au cinema. Paris: Cahiers du cinéma. 1991.

DEBS, Sylvie. Cinema e Literatura no Brasil: os mitos do sertão, emergência de uma identidade nacional. p. 120.

GARRAD, Greg. Ecocrítica. Brasília: UNB, 2006.

GLOTFELTY, Cherryl. The ecocriticism reader. Athens and London: The University of Chicago Press, 1986.

GUATTARI, Felix. As três ecologias. Campinas: Papirus, 1991.

HERMANNS, Ute. A viagem no cinema brasileiro. Revista Cinemais n° 17. maio/junho 1999. RJ.

PRYSTHON, Ângela. Da alegoria continental às jornadas interiores: o road movie latino-americano contemporâneo. Ícone. Recife, v. 2, n. 9, p 113-124, dez. 2006.

XAVIER, Ismail. Sertão Mar: Glauber Rocha e Estética da Fome. p. 124