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  Título
Cinema mundial contemporâneo e imaginação nostálgica
Autor
Angela Freire Prysthon
Resumo Expandido
Relíquias, vestígios, souvenires, rastros, mementos, arquivos... A cultura visual contemporânea está marcada indelevelmente por sua relação com o passado, com a memória, e de muitos modos diferentes com a nostalgia.

O objetivo desta comunicação é compreender a constituição do que chamamos de imaginação nostálgica a partir da análise comparada de quatro grupos de filmes das décadas de 90 e 2000. Dividimos o nosso corpus em eixos geográficos para melhor investigar os modos de articulação da nostalgia nos mais diferentes países, cineastas e filmes do cinema mundial contemporâneo: 1) o cinema asiático (em especial através dos filmes dos chineses Wong Kar Wai e Jia Zhang-Ke e do taiwanês Tsai Ming Liang); 2) cinema europeu (pincipalmente através dos filmes do romeno Corneliu Porumboiu, do russo Aleksandr Sokurov, do britânico Shane Meadows e do finlandês Aki Kaurismaki); 3) cinema latino-americano (sobretudo a partir das obras dos argentinos Martín Rejtman e Albertina Carri e do mexicano Fernando Eimbcke) e 4) cinema norte-americano (utilizando como emblemas os americanos Todd Haynes e Sofia Coppola).

O conceito de nostalgia empregado neste artigo tem suas raízes nas teorias pós-modernas, nos estudos de cinema derivados dos Estudos Culturais e na preocupação historiográfica com o percurso no qual a nostalgia passa de enfermidade, de maladia, de patologia que precisa ser curada, aliviada e dissipada a dominante estético e fílmico em todos os continentes. Neste marco de referências teóricas e fílmicas, a nostalgia funciona não tanto como comentário sobre o passado, mas quase sempre se efetiva como reação criativa ao presente, como articulação às vezes intensamente subversiva do sentimento de inadequação ou deslocamento em relação ao aqui e ao agora.

Nesse sentido, podemos pensar nessa articulação insistente da nostalgia no cinema mundial contemporâneo como a projeção do passado para frente, como um paradoxo espaço temporal que condensa passado e futuro, memória e desejo, nostalgia e utopia. Ou seja, a nostalgia se configura como uma temporalidade ambígua, como uma dimensão paralela da memória, como uma instância alternativa dos arquivos e como comentário sobre aqueles espaços des e re- territorializados.

A nostalgia (pelo passado, por uma memória por vezes inventada, pelo cotidiano que se perdeu em meio ao turbilhão das imagens midiáticas, por espaços já abandonados ou em ruínas) expressa nesses filmes das duas últimas décadas pode ser paradoxalmente diagnosticada como um anseio utópico. De fato, as centelhas da imaginação nostálgica parecem ser também a marca de algo profundamente transgressor e penetrante: a capacidade de mobilizar o passado, as ruínas e as distâncias crítica e afetivamente como espaços de resistência cultural.

Este artigo procura, então, vislumbrar nas articulações fílmicas da nostalgia e no trajeto (que vai do discurso médico ao cultural) da imaginação nostálgica a natureza paradoxal da modernidade cultural (seja ela central ou periférica). Tenta-se mapear o que podemos chamar de “Estéticas da nostalgia”, insistindo na importância de um olhar panorâmico para uma produção que é evidentemente muito diversificada e distinta(tanto no sentido da origem geográfica dos filmes e realizadores, como nos temas , opções estilísticas e abordagens formais), mas que curiosamente - a partir de semelhanças e também de diferenças significativas - vai reunir a série de recorrências que só reforça e amplia a hipótese inicial da centralidade da nostalgia no cinema mundial contemporâneo.

Bibliografia

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