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  Título
Os processos de cooptação do sujeito nos dispositivos contemporâneos
Autor
Cesar Baio
Resumo Expandido
A presente proposta volta-se aos processos de cooptação operados pelos dispositivos contemporâneos, que captam, armazenam, analisam, projetam a imagem do observador, dando especial enfoque às questões relativas ao lugar que estas obras reservam ao sujeito. Por meio de procedimentos de registro e re-significação, os referidos processos agregam deliberadamente o observador no campo da imagem, visando colocar em crise certas condições e formalidades ordinariamente exigidas pelos modelos tradicionais de representação.

Se, em sua “Filosofia da Caixa Preta”, Vilém Flusser desafia o artista à subverter o dispositivo técnico banalizado pela padronização industrial, por outro lado, hoje o artista encontra acesso cada vez mais fácil a uma larga gama de instrumental técnico para produção de suas próprias alternativas. Com isso, cresce o número de artistas que se lançam ao desafio de “programar” novas máquinas de imagem. É relativo consenso, nas teorias do dispositivo, de que todos os procedimentos técnicos de representação, mais ou menos automatizados, conduzem à (e resultam de) modos específicos de elaboração do mundo. Assim, entendendo que estes artistas se colocam o desafio de repensar nossa posição no mundo atual por meio de suas criações, este texto parte da análise de uma parte específica da produção contemporânea, visando identificar quais são as rupturas, pontos de tensão e de estratificação articulados em relação ao lugar do sujeito diante dos dispositivos de captação de imagem.

São analisados trabalhos de artistas que partem do instrumental da fotografia e do vídeo, colocando em prática procedimentos de produção, reapropriação e subversão destes, explorando resultados que impliquem em alguma sorte de deslocamento nos regimes de significação, como Julius von Bismarck e Gebhard Sengmüller. Farão parte também do corpus das análises, artistas como Ruairi Glynn e Daniel Rozin, que articulam este instrumental tradicional com algoritmos de processamento de imagens (computer vision, video data, artificial intelligence), e com sensores e outros instrumentos de hardware.

A análise parte do lugar do sujeito no cinema e no vídeo, que encontra na perspectiva renascentista a sua base, em uma imagem entendida como “uma paisagem já olhada e dominada por um outro olho que dirige o nosso” (Machado, 2007: 22). Conforme já apontava Baudry, este “olho-sujeito constitutivo, mas implícito, da perspectiva artificial, na verdade, é apenas o representante de uma transcendência...”(Baudry, 1983: 391). Transcendência esta que é uma representação sensível da metafísica ocidental e que opera a partir da oposição entre o sujeito da representação e o mundo tomado como objeto, “(...) de acordo com um modelo de consciência que se coloca diante do mundo e que, por estar separada dele, pode transcendê-lo.” (Xavier, 1983: 360)

Uma significativa investida nesta direção foi realizada por Philippe Dubois que, ao pensar o vídeo como “estado” e não como “objeto”, faz uma análise precisa de como os artistas do vídeo colocam em questão os modos de agenciamento de sentido videográficos. Ao analisar um conjunto de instalações de circuito-fechado, o teórico francês destaca a “problemática postural do lugar do olhar em suas relações contraditórias com a captação, de um lado, e visualização, de outro. (a esquizofrenia de ver e ser visto simultaneamente)” (Dubois, 2004: 109)

Nos interessa analisar como o deslocamento e, principalmente, os procedimentos de re-significação do sujeito do olhar transforma (ou representa a transformação) da subjetividade contemporânea. Nossa hipótese é que, se o renascimento guarda um lugar transcendente para o observador, as práticas expressivas atuais fazem coro com a crise do sujeito instaurada na contemporaneidade na medida em que tomam o sujeito como projeto, de acordo com a passagem conceitual desenvolvida por Vilém Flusser em “De sujeito em projeto” (Flusser, 1994).
Bibliografia

BAUDRY, Jean-Louis. Efeitos ideológicos producidos pelo aparéelo de base. In. XAVIER, Ismail (org.). A experiência do cinema. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1983.

COUCHOT, E. A tecnologia na arte: da fotografia à realidade virtual. Porto Alegre: UFRGS, 2003.

CRARY, Jonathan. Techniques of the Observer. Cambridge:MIT Press, 1991.

DELEUZE, Gilles. Foucault. São Paulo: Brasiliense, 1995.

DUGUET, Anne-Marie. Dispositivos. In. MACIEL, Katia (org.). Transcinemas. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2009.

FLUSSER, Vilém. Filosofia da caixa preta. Rio de Janeiro: Dumará, 2002

_______. Vom Subjekt zum Projekt. Düsseldorf: Bolmann, 1994.

MACHADO, Arlindo. O sujeito na tela: modos de enunciação no cinema e no ciberespaço. São Paulo: Paulus, 2007.

MERLEAU-PONTY, M. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

XAVIER, Ismail (org.). A experiência do cinema. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1983.

DUBOIS, Philippe. Cinema, video, Godard. São Paulo: Cosac Naify, 2004.