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  Título
Múltiplas perspectivas entre cinema e literatura em O cheiro do ralo
Autor
Aurélio Orth de Aragão
Resumo Expandido
“Graciliano, José Lins do Rego, Jorge Amado, estes eram os nossos papas. A literatura havia dado uma expressão estética aos problemas do povo. Queríamos fazer a mesma coisa com o cinema.” A fala do “imortal” Nelson Pereira dos Santos revela não só o estreito corpo a corpo entre o Cinema Novo e o Modernismo, mas também a reverência com que os cineastas tratavam essa literatura canônica. Entretanto, se investigarmos os termos da aproximação contemporânea entre as duas artes, perceberemos uma significativa transformação nos parâmetros que a pautam.

Se o Cinema Novo tomava a literatura como referencial no que diz respeito à percepção do país e à construção de uma linguagem brasileira, cumpre questionar em que diapasão se estabelece o diálogo entre literatura e cinema brasileiros, hoje. Levando-se em conta o declínio do pensamento utópico e da crença do papel transformador da arte, percebemos de imediato que o interesse na aproximação entre cinema e literatura mudou. Não se trata mais de uma abordagem em um eixo hierarquizante em que os cineastas buscam em obras primas canônicas o manancial de temas e linguagem capaz de sustentar um desejo de transformação social.

Ao falarem das razões que os motivaram a transpor o livro o Cheiro do Ralo para o cinema, tanto o diretor Heitor Dhalia quanto o roteirista Marçal Aquino se referem à pertinência e ao ritmo dos diálogos e ao interesse por um personagem que vive à sombra, na contramão. O que os encantou por foi a narrativa centrada em uma personagem repulsiva capaz de dizer aquilo “que todos querem e que ninguém tem coragem”. Por outro, foram atraídos pela entre o personagem e as coisas. Para eles o narrador do livro pode ser entendido como um sujeito cuja experiência se condensa em duas atividades: a dar preço às coisas e fetichizar suas relações afetivas. Interessante perceber que os próprios termos do fascínio que o livro exerceu tanto no roteirista quanto no cineasta, revelam uma aproximação com uma estética do desencanto pautada em elementos como repulsa e fetichização.

Entretanto, não é apenas a arte cinematográfica que permeia as páginas do romance O cheiro do ralo (Mutarelli, 2002). Ele é atravessado por diversas outras linguagens e tecnologias. O hibridismo em O Cheiro do Ralo produz uma arte impura que se reporta a matrizes de diversas ordens. Cinema e literatura se misturam aos quadrinhos, à publicidade, à televisão, à música pop no corpus de remissões realizadas pelo livro. Em algumas obras modernistas, o referencial cinematográfico surge quase como um manifesto estético. Tratava-se de uma postura programática; era preciso incorporar novas linguagens e tecnologias para tratar das questões brasileiras. Não é mais essa a busca que norteia romances como O cheiro do ralo. A presença de outras tecnologias parece incorporada à prática literária de uma maneira mais orgânica. O jogo intertextual que faz entrar em campo em pé de igualdade a alta cultura, o entretenimento e a cultura de massa parece um dado inescapável. O cheiro do ralo tenta elaborar essa profusão de dados estéticos em múltiplos planos. O próprio excesso da sociedade de consumo é o tema da narrativa, e os riscos e angústias que ele promove serão fundamentais para definir o caráter do narrador e do modo de narrar do livro.

Com isso, ao transporem para o cinema a obra de Mutarelli, Marçal Aquino e Heitor Dhalia se propuseram um desafio que se equilibra sobre uma linha paradoxal. Como realizar um objeto de consumo cuja tensão narrativa se calca justamente no descompasso íntimo e relacional produzido pelos excessos do capitalismo de consumo?
Bibliografia

AVELLAR, José Carlos.O chão da palavra. Rocco, Rio de Janeiro, 2007.



BIRMAN, Joel. Mal estar na atualidade. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2009.



JOHNSON, Steven. Cultura da interface. Jorge Zahar, Rio de Janeiro, 2001.



MUTARELLI, Lourenço. O cheiro do ralo. Devir, São Paulo, 2002.



ROSENFELD, Anatol. Texto/Contexto. Perspectiva, São Paulo, 1976.



RIDENTI, Marcelo. Em busca do povo brasileiro. Record, Rio de Janeiro, 2000.



STAM, Robert. Literatura através do cinema: realismo, magia, arte e interpretação. UFMG, Belo Horizonte, 2008.



XAVIER, Ismail. O olhar e a cena. Cosac & Naify, São Paulo, 2003.